A quebra da felicidade

Um casal com hábitos estranhos, calçar um tamanco para que adentre sua casa, um espelho a um canto observando a passagem dos convidados para as intermináveis festas, tudo é cenário perfeito para esta estranha narrativa em que ao final só resta o silêncio de um lugar onde não há mais festas…

A quebra da felicidade

William Foster

Assim que o casal se mudou para a nova casa, tomou a providência de adquirir um espelho de alta envergadura e posicioná-lo no canto da sala, enviesado, a observar todos que passavam. E as mais diferentes criaturas desfilavam por aquele aposento, não sem antes retirar os sapatos e colocar estranhos tamancos, uma exigência dos anfitriões. Segundo eles, o que viesse da rua não deveria ultrapassar a porta que dava acesso ao interior da casa e os sapatos eram especialistas em trazer de tudo que encontravam pelo chão, pelas ruas.

Posicionado à esquerda do alto espelho, capaz de capturar a imagem das pessoas em sua totalidade, o casal notou uma mudança de comportamento dos convidados ao transitarem por aquele breve espaço. Percebeu que as pessoas não eram mais as mesmas depois de passarem pelo espelho e terem suas imagens capturadas. Eram de uma natureza ao chegar e, a seguir, eram outras. Isso o marido havia notado. A mulher passou também a ter a mesma percepção, embora descrente da metafísica, do subjetivo.

Corriam festas e outras reuniões menos glamurosas e o comportamento de cada um dos convidados chamava a atenção pelas opiniões sobre os mais diversos assuntos, pela delicadeza com que se tratavam. Não eram os mesmos, definitivamente, após retirarem seus sapatos, colocarem os estranhos tamancos e passarem pelo espelho que reinava imponente. Do lado de fora, isso era lá com eles, mas ali, comandados por um objeto de moldura luxuosa, diferiam em tudo.

Com o tempo, senhor inquestionável da rotina, das impaciências, do desalinho, o casal agora já não é mais o mesmo, não se entende, diverge em quase tudo, corre rumo ao previsível. No entanto, ainda um pequeno ponto em comum faz com que olhem na mesma direção e eles resolvem colocar os tamancos, obedecer ao ritual de todos, e passam diante do espelho e se sentem sugados para dentro de um mundo paradoxal. Conversam, chegam a conclusões desejadas e se beijam, se abraçam. Entendem que ali estava a solução de tudo.

No entanto, em razão da porta da casa estar sempre aberta, não se tinha controle sobre tudo o que poderia entrar. Dois meninos, como há tempos não se viam por ali, talvez saídos de uma história com personagens planejados a certos comportamentos, jogam bola alegres, sem muita habilidade, pelo simples prazer de chutar uma bola. Eis que justo ela, após um chute violento e certeiro, quica do lado de fora, triangula numa espécie de espiral junto à parede e vai de encontro ao espelho que se despedaça, deixando apenas restos de imagens distorcidas, desaparecendo em suas próprias deformações.

A casa, outrora imponente, cheia de luzes a lhe envolver, evocando um brilho sem precedentes, está abandonada. As paredes já começam a criar mofo, as janelas batem insistentes sem a devida manutenção em suas dobradiças e trancas. Folhas se acumulam nos jardins descuidados e invadem todos os cômodos que traduzem a sensação de vazio interminável.

O glamour das festas e reuniões, antes com ares intermináveis, pertence ao passado. Não há mais discussões, não há mais música, nem o alarido das comemorações que se alongavam noite adentro e só terminavam quando a vizinhança começava a acordar para sua rotina diária.

O jovem casal não foi mais visto, restando apenas os pedaços do espelho ainda espalhados pelo chão da sala. Um desses pedaços eventualmente é atingido pelos raios do sol e fica a impressão de que alguma coisa se movimenta pela sua superfície. A um canto, um par de tamancos ainda ocupa seu espaço à espera de que alguém venha a usá-lo. Talvez ele conte com isso!