por: Benício Gon
Ultimamente Fromilda andava pensando no pai com mais frequência. Baldênio vazou de casa para nunca mais quando ela tinha apenas seis anos de idade, sem se comover nem um pouquinho com seu choro pueril. O genitor era um homem do mar, um pescador obcecado por tirar das águas salgadas monstros cuja maioria da humanidade só conhecia por relatos de marujos embebedados em tabernas escuras espalhadas pelo mundo. No fatídico dia em que fugiu de suas responsabilidades, ele acabou por cumprir a profecia da sogra. A velha maledicente repetia a cantilena todo santo dia à filha: Esse traste não é capaz de bancar casamento nem de constituir família, o negócio dele é bebedeira e semvergonhice com essas putas da rua!… Ingrácia era faladeira, mas tinha lá certa razão. O genro possuía uma natureza oceânica, a terra o carcomia de ferrugem – sua estabilidade tediosa dava-lhe náuseas. Além de tudo, misturar aquela vida aventureira aos carinhos das mulheres que o desejavam sem fazer exigências ou críticas acenava como uma possibilidade bem mais agradável.
Mazelas à parte, em seu parco arcabouço de lembranças paternais Fromilda guardava com carinho as vezes em que ele pacienciosamente a colocava no colo para lhe contar histórias de pescadores, cheias de aventuras épicas as quais protagonizava, derrotando leviatãs, baleias assassinas e outros seres que habitavam seu imaginário. O mar esconde tesouros, assim como guarda os mais terríveis pesadelos, minha filha. – dizia com ar professoral, o pingente de sereia reluzindo no cordão pendurado ao pescoço.
Certo é que Fromilda se metamorfoseara numa adulta troncuda. Seu pai, com toda a Certeza, não conseguiria mais sustentá-la por tanto tempo no colo nem teria mais complacência para atualizá-la a respeito das últimas ocorrências na jurisdição de Poseidon. O marinheiro fujão havia deixado tudo para trás não só pela vida boa do cais, mas também por suas constantes empreitadas marítimas. Sujeitinho vaidoso/ambicioso, Baldênio tinha como sua Polaris a busca por grandes feitos, sendo assim, pode escrever aí que ele não soltaria desse leme de jeito nenhum.
Tudo bem, tudo certo… mas para ela nada disso fazia sentido. Em que cartilha estava escrito que seu pai, o herói invencível da sua história seria capaz de ir embora, deixando uma menina órfã de carinhos e de novas aventuras, chorando na soleira da porta? Mundo injusto demais, meu Deus!
Longe da atenção paternal, Fromilda seguia seu cotidiano de formiga trabalhando como cortadora numa modesta fábrica de calçados. Sua atividade laboral se resumia a fatiar o couro obedecendo ao contorno da silhueta dos moldes usando uma lâmina afiadíssima, o que exigia da moça bastante destreza. Costumeiramente, durante o loop infinito de cortes precisos, seus pensamentos saiam dali, visitando lembranças a respeito de fatos que havim esquecido de acontecer. A cadência do seu cotidiano respeitava a marcação da sirene escandalosa instalada na fabricazinha, que a avisava da hora de começar a trabalhar, comer ou ir embora para sua miséria existencial. Na volta para casa, sempre passava no supermercado para comprar o que podia e admirar o que não podia. Uma vez ficou por quase meia-hora bestificada com o preço de um pedaço de queijo francês (metade do seu salário). E olha que o danado pesava por volta de duzentos gramas… Ser rato em Paris está pela hora da morte! – gracejou em pensamento.
Às vezes ficava parada num dos corredores entre as gôndolas para observar as câmeras de segurança. Ficava por ali imaginando se estavam mesmo ligadas ou se o responsável pela segurança monitorava cada passo seu, pronto para acionar os alarmes caso a falsa consumidora fizesse algum movimento suspeito que colocasse em risco a segurança nacional. Talvez o malandro estivesse tirando uma soneca, cantando uma colega de trabalho mais acessível ou mesmo fazendo hora no banheiro. Vai saber. O certo é que ela ficava intrigada com tantos olhos artificiais lhe dedicando uma atenção que não recebia das pessoas.
Em seu tedioso ritual de sobrevivência sempre comprava as mesmas coisas: um pacote de macarrão instantâneo, dois pães e um bombom para comer depois do jantar, para fechar o dia com chaves de ouro. Seu ritual incluia o flerte com uma imensa esfera de plástico transparente pendurada por um arame amarrado ao teto, que ficava girando segundo a vontade do vento. Justamente por ser translúcida, a gorducha exibia as centenas de bombons que compunham aquela deliciosa alma. Em seus delírios gastronômicos, ela se imaginava minúscula ali dentro, se acabando naquele universo de chocolate. O céu, segundo concebia, deveria ser abarrotado de câmeras atenciosas, queijos com preços acessíveis e divagações imbecis envolvendo chocolate.
Tá certo, nossa personagem vive essa vidinha mediocre que foi porcamente apresentada até aqui, não obstante, aconselho cautela. É de conhecimento geral que o destino quando cisma, faz tudo se modificar de uma hora para outra e não faz distinção entre classes. Com isso em mente, temos que, mesmo uma criaturinha desgraçada como Fromilda, poderia ser vítima de uma virada de mesa daquelas, onde nenhuma peça do tabuleiro ficaria em pé.
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Eu estaria mentindo se dissesse que haviam muitas cortadoras de couro no setor de calçados daquela região. O serviço bruto estragava as mãos. Quem prezasse por uma pele decente dispensava a atividade de chofre. Fromilda não ligava para isso: era pau pra toda obra, não rejeitava serviço e, quando ofereceram o desafio de gastar o corpo naquele trabalho torturante, ela aceitou de imediato. Para a garota não existia dinheiro difícil de ganhar. Difícil era aguentar a mãe reclamando em lá maior quando faltavam uns trocados para inteirar na compra do pão – quando a genitora (dramática como o quê) inaugurava sua ópera de muxoxos fazia até monge tibetano sair de perto, praguejando. Certo é que a cortadora ficou tão boa no trabalho que colocou todos os outros colegas no chinelo. A danada era procurada para dar consultoria sobre tudo que se referia ao tema na fábrica. Disciplinada, estava sempre em seu posto no horário determinado e só saía do serviço com o apagar das luzes do galpão.
Naquele dia, estava especialmente perturbada com as lembranças do pai, o espectro que assombrava sua vida. Em certo momento, podia jurar que havia sentido cheiro de maresia, de peixe fresco saracoteando na areia seca o que a levou a acreditar que estava enlouquecendo. Mergulhada nesses pensamentos que desenhavam fractais nostálgicos em sua mente, acabou por se cortar feio. Pudera! Até a mais inocente das criaturas sabe bem que divagações sobre o passado nunca combinaram com o manuseio de lâminas afiadas.
- Tudo bem aí Fromilda? Machucou? – inquiriu um conhecido, preocupado com a situação.
- Não, tudo bem.
O corte foi superficial, mas doído que só. Estancou o sangue por alguns minutos debaixo de uma pia suja ali por perto, correndo para fazer um curativo improvisado com o que estava à mão. Tinha de andar rápido com aquilo, pois não dispunha de tempo para sentir dor. A trabalhadora recebia por produtividade e o dinheiro necessário para fazer sua compra diária no supermercado ainda precisava ser ganho.
Acostumada àquela rotina de barulhos enlouquecedores, cortes ardidos e cheiros em constant profusão, Fromilda voltou para sua labuta a todo vapor. Como antídoto para encarar aquela realidade devastadora foi logo colocando seu escafandro imaginário qualhado de pensamentos intrusivos.
O restante do dia transcorreu normalmente, salvo um único detalhe: estava com uma coceira na perna direita que dava gosto – quanto mais coçava, mais a vontade de escavar a pele com as unhas lhe atormentava. Sentiu até o local inchar, o que a obrigou a passar na farmácia para comprar uma lata de pomada Minâncora, que, segundo sua mãe, curava até dor de amor.
Ao chegar em casa, foi direto para o banheiro com o mote de tomar um banho, pois estava bastante cansada. Além disso, a urticária na perna estava lhe corroendo as carnes. Estava louca para deitar remédio na chaga.
Foi tirando a roupa rapidamente quando, ao olhar para a sua perna direita, tomou um susto: a área que coçou estava bastante inchada, formando elevações de textura estranha. Havia se formado
uma espécie de escarpa ressequida, coberta por pequenas elevações semelhantes a escamas. Passou um tempo alisando o local, tentando entender aquela condição bizarra até se acalmar. “Acalmar” talvez não fosse a expressão mais adequada, melhor seria se dissesse “conformar”. Após o banho, besuntou o local generosamente com a pomada à base de cânfora, seguindo as indicações da mãe que tinha bem mais juízo que ela.
Como de costume, após o Jantar, elas se acomodaram na sala cada uma no seu local predeterminado, pois naquela casa não se admitiam violações de conduta de qualquer natureza. A novela estava morna e, como Fromilda se via encharcada de divagações, resolveu cutucar a mãe:
- Mãe…
- Fala filha – respondeu Joserlânia sem tirar os olhos da TV.
– Posso lhe perguntar uma coisa?
– Fala.
– A senhora amou meu pai?
Vixe… agora Fromilda tinha se enfiado em confusão. Tirar a concentração da mãe no momento sacrosanto em que estava assistindo à sua novela era considerada uma falta imperdoável. Ainda mais para tratar de um assunto daqueles. Com o semblante transfigurado, como se uma entidade tivesse se apossado dela, retorquiu:
– Que conversa é essa Fromilda? Bebeu?
– Queria só saber mãe.
– Pergunta de gente enxerida. Amou?! Que conversa é essa meu Deus?!
– É normal a gente ter filho com quem ama. Pelo menos eu penso assim.
– Pensa isso porque é menina boba, inocente, igual eu fui! Vai tirando essas ideias da cabeça, foi pensando assim que eu vim parar aqui nessa maloca! Vai arrumar o que fazer!
A moça se remexeu no sofá, escolhendo uma posição mais confortável para um novo bote:
– Vi outro dia uma foto da senhora com ele, uma que está dentro da gaveta do armário lá no seu quarto. Vocês pareciam felizes.
– Intrometida! Indecente!
– A senhora não estava feliz?
– Claro que estava, burra que só! – cedeu Joserlânia, se enrolando feito uma cobra –Namorono começo é tudo uma maravilha. Ilusão da desgraça.
– O pai era bonito né? Roupa de pescador, tatuagem nos braços, bronzeado; um bigodão estiloso…
– Para com essas bobagens menina! Grandes coisas. De que adiantou aquela beleza toda? Não estou aqui sozinha? Hum… só me faltava! Pensa bem: bonito daquele jeito, mas preferiu ficar lá no meio daqueles peixes fedidos dele do que constituir família, viver como Nosso Senhor Jesus Cristo ensinou. Um canalha, isso sim.
– A tia Libéria disse que eu sou a cara dele.
– Sua tia Libéria devia parar de tomar conta da vida dos outros e prestar mais atenção naquele marido cachaceiro dela. Ia ganhar mais. O traste vive dando em cima de tudo quanto é mulher na rua. Nem parece que é minha irmã aquela lá. Mexeriqueira. Você sempre pareceu com sua vó, não herdou nada daquele herege, graças a Deus.
Fromilda sabia que a pergunta que faltava teria como possível consequência um rombo considerável no casco do seu batel, mas ela tinha de tentar. Quem sabe a mãe lhe estendesse generosamente a mão com uma resposta a contento? Isso aliviaria bastante a pressão das suas dúvidas, levantaria a válvula daquela panela de pressão para o vapor sair, devolvendo-lhe a paz. Tentou:
– Por que o papai foi embora?
Quem avisa amigo é… estava na cara que isso ia acontecer. O caldo entornou. A mulher ficou com o rosto enrubescido como se uma espécie de melaço de sangue subisse do pescoço para a testa, contrariando as leis da física. Revoltada com o interrogatório invasivo da filha, deixou as palavras virem à boca em aluvião:
– Escuta bem o que vou te dizer, menina insolente: aquele inútil foi embora porque não queria viver como homem honesto, com a responsabilidade que a família trouxe pra ele. Era um egoísta, um crápula sem coração. Saiu de casa com você chorando, se agarrando nas barras das calças dele! O amaldiçoado nem ligou, se afastou de você igual a gente se afasta de um cachorro sarnento de rua. Eu nunca vou perdoar aquele desgraçado por ter saído assim, por não ter assumido a família que Nosso Senhor tinha reservado a ele. Só quero que Deus me abençoe minha filha com muita saúde para que dê tempo de assistir àquele maldito comer o pão que o diabo amassou com o rabo. Que ele arda no fogo do inferno com os exus dançando em volta! Olha, você acabou me tirando até a vontade de ver minha novela. Vou dormir, porque assunto de Baldênio aqui em casa já deu! Boa noite!
Foi o tempo de sair a passos largos em direção ao quarto e bater a porta para Fromilda cair no choro. Não entendia como aquele casal bonito da foto podia ter se transformado em dois inimigos mortais. Ódio de gente mal amada não tem fim – pensou.
Mesmo com as observações a respeito do pai, ela ainda o queria por perto. Sentia falta daquele bigode de piaçava, da pele curtida de sol e até mesmo do pingente de sereia. Depois de algumas horas remoendo os acontecimentos resolveu passar a noite por ali mesmo, pois finalmente havia encontrado posição em que a urticária dava trégua.
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Corriam sete dias riscados no calendário sem que Joserlânia lhe dirigisse palavra. Fromilda entrava e saia de casa como se fosse invisível, a mãe não lhe perdoava a ferida que a filha lhe tinha aberto com aquela perguntação. Fora do roteiro, só mesmo as coceiras persistentes. O mais engraçado era que ela parecia ficar mais agressiva quando a garota se feria no trabalho, aquelas bactérias amaldiçoadas pareciam se alimentar dos taios em seus dedos. As chagas se espalhavam em diversas áreas, causando-lhe vergonha. Em casa, mesmo em altas temperaturas, usava moletom e meias para cobrir as escaras. O pior era que o calor produzido pelo excesso de roupas parecia eriçar ainda mais as coceiras, fazendo surgir novas escamas.
No segundo domingo de fevereiro (fazia um calor dos infernos) Fromilda resolveu que aquele distanciamento entre as duas deveria ter um fim. No meio do almoço familiar, tomado por um silêncio sepulchral, ela falou, solar:
– Sabe, mãe, estou com vontade de dar uma volta na praia. Vamos?
Para Fromilda aquela era apenas uma pergunta inocente como outra qualquer, com a intenção de trazer a mãe para perto de si novamente. Para Joserlânia, não foi bem assim:
– Você é uma cínica mesmo, igual ao seu pai – respondeu raivosa após uma golada de suco.
– Como é?!
– Cínica, sem-vergonha, safada igual ao seu pai.
– Eu só estava tentando fazer as pazes!
– Fazer as pazes?! Tá bom. Me levando para a beira do mar, onde aquele demônio mora? Eu prefiro a morte do que chegar perto daquele ambiente.
– A senhora está sendo injusta!
– Injusta? Sei… sua tia Libéria além de futriqueira era cega: não é só fisicamente que vocês dois se parecem, vocês são iguaizinhos também por dentro. São cruéis, se merecem.
– Não fala isso!
– Falo sim!
– Eu só queria que fizéssemos um passeio para nos distrairmos, conversarmos, nós…
– Eu não quero conversar com você! – interrompeu transtornada.
– A senhora é minha mãe, eu te amo.
– Ama muito Fromilda, ama muito! Você vai amar é a rua. Pegue suas coisas e saia das minhas vistas agora!
– O quê?!
– É isso mesmo que você ouviu, vá procurar sua turma, me deixe sozinha em minha casa!
Joserlânia publicou seu decreto jogando o prato de comida ainda pela metade na pia para se trancar no quarto. Depois de alguns minutos de choro, Fromilda obedeceu à mãe como uma boa filha faria: juntou suas roupas em duas mochilas velhas e partiu para longe dali, não sem antes se aproximar da porta do quarto de Joserlânia para declarar seu amor novamente.
O sol estava causticante. Sem ter destino certo resolveu ir até a orla marítima para pensar no que faria. Aproximou-se da água, jogou seus alfarrábios na areia e se colocou a pensar onde o pai estaria naquela imensurável galáxia salina. Emocionada com sua condição ainda sem entender como chegara até ali, ela chorou ainda mais… chorou sem data de vencimento, compulsivamente, até adormecer.
Horas depois, sentindo a pele sendo dilacerada por toda aquela soda cáustica derramada pela estrela, acordou. Diabos! Adaptar a visão àquela claridade toda era empreitada indigesta. Quando as cores finalmente entraram em sintonia Fromilda pôde contemplar sua insólita condição: suas pernas davam lugar a um rabo de peixe brilhante, reescrevendo uma versão híbrida do que fora até então. Bateu a cauda para fazer um pequeno test drive, experimentando movimentos inéditos, quando uma vontade insuportável de mergulhar no mar a tomou. Rapidamente ela foi se arrastando até as águas, desenhando ideogramas ininteligíveis na areia. Coração na boca: tum tum… tum tum… tum tum… Enquanto isso, um tsunami de hipersensibilidades bateu contra o seu corpo ao som de sinfonia imaginária. Convulsões impulsionavam-na com velocidade pelas águas, emulando golfinhos num bailado belíssimo, se desviando com uma habilidade absurda dos cardumes e dos corais cortantes.
Não lhe faltava ar, nem felicidade. A hidrodinâmica do seu torso fatiava as moléculas submarinas como a mais afiada das espadas, impulsionando-a em espirais coreográficas ousadíssimas. Sua humanidade havia sido esquecida, abandonada. Quando por fim exauriu seu repertório sob o domínio completo das novas habilidades ela percebeu que sua versão atualizada serviria para realizar seu maior sonho: encontrar o pai agora sem maiores dificuldades, afinal de contas, o Atlântico servia de quintal para o homem.
Fromilda não via a hora de vê-lo novamente, dizer da saudade que sentiu, dizer que lhe perdoava. Iria implorar para que seu herói a resgatasse da maldade da mãe amargurada e quem sabe depois do seu resgate bem-vindo, confessar que seu coração sempre fora dele. Dessa forma, singrou os mares por horas até finalmente encontrar o barco pesqueiro pertencente ao seu criador.
Ao longe, apenas com a cabeça para fora da água a filha o viu. Ele estava com a mesma imponência das fotos, ainda mais belo com o rosto marcado pelos anos nos conveses das embarcações. Estava com um cachimbo na boca e, ao flertar com Fromilda, se assustou. Ela, por sua vez, emocionada, deu um salto para fora da água expondo toda a beleza de sua cauda mitológica. Tomou impulso para reaparecer mais perto, subiu novamente para se mostrar a Baldênio, sorrindo.
Naquele exato momento ela percebeu que os cortes nos dedos proporcionados pelas lâminas que usava no trabalho não chegavam nem aos pés da dor que tomara seu peito. Ao olhar para baixo viu um arpão transpassar seu corpo, o sangue saindo aos borbotões trocando o azul do mar pela tinta da sua morte. Aquela dor insuportável foi deixando o dia cada vez mais enegrecido e a sereia Fromilda antes de perder completamente os sentidos viu o pai pular de alegria junto de outros marinheiros.
Ao ser arrastada da água, Baldênio não acreditava que por fim havia pescado o monstro do mar que caçara obstinadamente durante toda sua existência. Os companheiros, incrédulos, contemplavam a criatura morta sem acreditar nos próprios olhos ao constatarem que as histórias contadas por seus ancestrais marinheiros era verdadeira.
A ausência do lar, durante tantos anos, apagara da memória do homem os traços parentais que poderiam causar alguma dor ao pescador implacável. Findo o primeiro ato daquela tragédia travestida de prodígio, Baldênio colocou o corpo da nereide numa enorme caixa com gelo, fazendo dela o túmulo improvisado da criatura fantástica capturada. Depois disso, voltou para o timão, mudou a rota rumo à terra firme e beijou o pingente de sereia, agradecendo aos deuses do mar por aquela pescaria magnífica.

