Os relógios do senhor Wanderbuild

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por: Aírton DeSouza

A parede defronte o imenso sofá de couro, corroído matematicamente, estava coalhada de relógios se alternando de modo frenético por estabelecer suas batidas. Todos respeitavam os segundos voluntariosos, separando as horas inevitáveis. Era uma sinfonia não sincronizada, mas alternada, como se cada um daqueles instrumentos quisesse se contrapor ao outro, por milésimos de segundos. Era um sopro a mais na existência.

No centro do sofá, com um cálice de licor nas mãos, o senhor W. observava os movimentos dos ponteiros, questionando quando deixariam de se pronunciar. Movimentava a pequena taça em direção à boca, num automatismo de fazer inveja aos ponteiros de cada uma daquelas máquinas vetustas, bem distribuídas na imensa parede. Atingiam o alto, pois eram em número considerável a fazer breves sombras quando da passagem do sol pelos dias estivais.

Súbito uma estacada inesperada de um dos ponteiros marcou a inexistência de energia para que se processasse o movimento. O ambiente, portanto, ficou com menor grau de barulho do que o costumeiro. Um dos relógios havia parado de marcar as horas, o que era basicamente uma afronta ao anfitrião que ora se recolhia em seus pensamentos, em seu movimento de copo na boca, como se houvesse um atraso, posto que havia a falta de um dos ponteiros a correr a imensa lâmina de números em torno do círculo regular.

Mais um e tantos mais acompanharam o primeiro que se manifestou, ou que deixou de se manifestar, até que restou apenas um como um valente guerreiro de espada em punho, ou melhor, de ponteiros em punho a convergir sempre em direção ao caminho rotineiro de um relógio.

O senhor W. não apresentava qualquer expressão mais grave, de desaprovação. Continuava com seu movimento mínimo de levar o pequeno cálice à boca, até que não restasse mais nada. Quando isso aconteceu, depositou o delicado objeto sobre a mesa de madeira rústica. Acabara de ouvir a campainha. Como estivesse sozinho, foi em direção à porta, abriu-a e se deparou com um elegante casal. Os três trocaram olhares inconfundíveis, sorriram comedidamente e se dispuseram ao diálogo.

            – Já esperava por você, mas não esperava que viesse acompanhado – considerou o senhor W., movendo o rosto à esquerda, em direção ao homem, depois à sua direita, em direção à bela mulher.

            – Digamos que se trata de um presente, uma surpresa – ponderou o que acabara de chegar.

            – Não sou muito dado a surpresas, bem como as evito, pois não gosto de nada inesperado, mas, supondo você a trazê-la, acredito que possa eu ficar mais à vontade… – concluiu W. fazendo com que os dois entrassem na imensa sala.

O visitante passeou os olhos pelo ambiente e não deixou de notar a variedade de relógios na imensa parede, mas, principalmente, o fato de apenas um deles ainda estar em atividade. Os demais pareciam recolhidos a um canto, esboçando tristeza em seus ponteiros que agora pendiam sem função, enquanto suas caixas não propiciavam nenhum barulho sequer, isso cabendo apenas ao que ainda se mantinha ativo. A mulher, por sua vez, não se ateve a esse episódio, mas sim, ao luxo do ambiente. Embora fossem mínimos os   móveis, os que ali se encontravam valiam muito a pena, dada à qualidade e à nobreza de cada uma daquelas peças. Ela poderia descrever a madeira com que cada uma fora feita, pois era de sua natureza avaliar o luxo que cerca as pessoas, sobretudo quando o tempo passa e podem desfrutar de seus ganhos, não só financeiros, mas também de seu aprimoramento quanto ao gosto por objetos e pessoas.

Dirigiu-se ao anfitrião com delicadeza depois de se ater a cada um dos componentes do luxuoso ambiente. Sua voz nada tinha de monótona, flexionando-se melodiosamente.

            – L. ao seu dispor…

            – Admito que seja uma sugestão as demais letras que possam acompanhar essa consoante – disse W. esbanjando um sorriso.

            L. riu sem pudor, pois tinha em mente que ele, caso não de imediato, no decorrer dos momentos que teriam para si, seria capaz de pressupor, sem pestanejar, as demais letras que fariam sequência àquele início mínimo. Enquanto ele, elegantemente, beijava uma das mãos da mulher, ela corria os olhos pelos ombros dele, pelos cabelos, pela roupa bem cortada, indo depositar a última das visões sobre os olhos que agora se erguiam entusiasmados.

            Afastado pela distância adequada, M. havia se servido de uma bebida e a apreciava, observando o casal a se formar pelos instantes seguintes. Em gestos comedidos, com sua voz metálica de barítono grave, dirigiu-se ao casal, pois esse parecia ter esquecido a presença de outra pessoa no ambiente.

            – Creio que podemos nos acomodar para discutir as regras do contrato, porque não nos falta tempo suficiente para outras amenidades, no caso, o verdadeiro sabor de tudo.

            Os três se voltaram de costas, já que se encontravam no centro da imensa sala, em busca de um lugar para se acomodar. Três pequenos e aconchegantes sofás individuais, cobertos de fina camada de couro envolvente pareciam insinuar a si mesmos em direção às pessoas no ambiente. Cada uma, portanto, tomou seu lugar e uma pequena mesa a um canto parecia também desejosa de participar dos acontecimentos. Ela foi, em seguida, arrastada pelo senhor M., tomando a veia de anfitrião, colocando sobre ela um litro de uísque, um pouco de vodka em outro recipiente, um litro de vinho recém-aberto, além de uma pequena botija de licor, de aparência convidativa aos prazeres da carne.

A mulher, sem pestanejar, tomou logo uma pequena taça e a encheu com o líquido erótico e se recostou no espaldar macio, pondo-se a tomar em pequenos goles que embalavam seus pensamentos e escorriam silenciosamente pela garganta não mais ressequida pelas palavras ou pelo vento de há pouco lá fora.

W. preferiu o uísque, embora também ficasse um pouco tentado pelo licor compartilhado pela mulher. M. foi direto ao vinho, encheu generosamente sua taça e se pôs a beber, como se fizesse um bom tempo que não praticava aquele gesto singular.

Assim permaneceram por instantes, testemunhados somente pelo último dos relógios, ainda insistindo em bater no compasso dos ponteiros precisos em seu movimento. Apenas os olhares se tocavam vez ou outra, mas nada que pudesse comprometer qualquer um deles.

            – Parece-me um bom momento para umas palavras – proferiu M. em tom solene.

            – Será que de fato tem lugar? – observou W. dirigindo-se lascivamente para L.

            – Tudo a seu tempo, diria um sábio, embora não pareça o lugar mais apropriado a um neste lugar. Se insiste na dispensa das palavras, por que não se apega ao que de fato deseja, afinal está diante de você o que tanto quis, ou o que sempre desejou ao longo de toda sua vida! – concluiu M. de modo lacônico, sem deixar margem para outras observações.

As palavras soaram como uma ducha a cair fortemente sobre a cabeça de W. Quase por instinto, mudou a atitude do olhar e se recolheu de modo defensivo, preparando-se para o contra-ataque.

            – Por quem me toma? Acredita que sempre me ative apenas aos prazeres mundanos, sem me ocupar de tantas abstrações necessárias a um provedor como eu? Saiba que encontrará um universo de leituras indelével, uns tantos textos compostos com observações que sempre deleguei ao mundo, como forma de tentar entendê-lo, ou de dizer alguma coisa, um breve caminho que fosse aos pequenos andarilhos errantes, sem nunca encontrar a tão sonhada luz que pudesse provê-los de um lugar de parada, um mínimo abrigo!

            W. tomou mais um gole, especificamente, um grande gole que lhe percorreu as entranhas, queimando tudo como uma fagulha num universo ressequido depois de anos sem a menor queda d’água. Aquilo não lhe parecia normal, ser reduzido a tão somente um ser abjeto, afeito aos desejos da carne, incapaz de contribuir para outras faculdades, além das tão singelas e obscenas.

M, em sua posição, continuava impávido, senhor de suas observações, aguardando as ações do outro, na vã tentativa de convencê-lo do contrário. Também se dispôs a mais um gole, mas sem a mesma fúria do gole do outro, sem a intensidade agressiva a lhe proporcionar incômodo.

            – Então devo supor que recusa o que lhe trago com tanto zelo e agrado… Não deixará apenas a mim com cara de insatisfação, mas, por certo, fará com que lágrimas caiam por tão belo rosto. Eis o que de fato é o que deseja, sem ao menos experimentar timidamente qualquer parte desse regalo diante de si? – inquiriu M.

Momentaneamente, sobreveio a dúvida a W. Tomou mais um gole antes de qualquer decisão. Jamais se perdoaria por ser afoito, ou se deixar levar por um capricho menor, ou por uma folha aleatória caindo de uma árvore ao longe. Talvez tivesse sido um autoritário, um emperrado em certos conceitos, um bruto, isso o que alguns julgavam. No entanto era de sua natureza ir à frente e retroceder se fosse o caso, medindo as consequências de qualquer gesto impensado ou feito com sofreguidão.

Ergueu-se decididamente e foi em direção à mulher, tomando-a nos braços, fazendo com que ela sorrisse e abrisse os lábios em direção a ele. A uma pequena distância, M. observava satisfeito. Não era costume deixar-se levar por argumentos contrários às suas decisões. Conhecia bem a espécie humana para não se enganar no que sugerisse ou no que propusesse a ser feito por cada um dos que visitava, em suas casas, no ritmo dos relógios que avançavam impiedosamente rumo ao desconhecido.

Levantou-se placidamente, não como o outro, e passeou pelo ambiente, tomando sua bebida num ritual de prazeres e conclusões acertadas. Tudo estava a contento.

Assim instantes se passaram e M. voltado para um quadro cubista em uma das paredes, virou-se quando cessaram as respirações apressadas, o farfalhar de roupas sendo tiradas e depois sendo colocadas. Sua presença ali não carecia de ser notada, exceto quando daquele momento em que tudo parece terminar. E lá estavam novamente os três sentados em suas posições originais, com seus copos de outrora, com outros olhares e outros semblantes.

            – Ah, os artistas… Você tem belas telas aqui! – disse M. com um brilho no olhar.

            – Naturalmente, minha outra paixão! – respondeu W, embriagado pelas próprias palavras. – Esses seres magistrais, com seus múltiplos talentos me inspiram.

            – Ao que me consta, o senhor foi sempre um colecionador, mas sempre com um olho no que poderiam render financeiramente … – observou M.

            – Há algum pecado nisso? Afinal, com essas compras, como o senhor mesmo pode notar, muitos se fizeram grandes, tornaram-se conhecidos no mercado, venderam obras e obras e puderam se dedicar com mais afinco ao que faziam de melhor, sem se preocupar com as banalidades que invadem o cotidiano de todo mortal – pontuou W., bebendo mais um pouco do seu copo, já quase vazio.

            – Nenhum pecado. Possivelmente, uma exceção a ser feita… Quando o senhor investiu em quem não tinha talento algum e mesmo assim foi à lua, graças ao seu poder de convencimento, ao respeito que lhe dirigiam, como se fosse o que decidisse tudo, quem ficaria com os louros ou quem estaria fadado ao fracasso? – acrescentou M.

As palavras de M. permaneceram intactas na sala, pois o silêncio posterior não poderia quebrar-lhes o encantamento ou tirar-lhes o poder de rasgar a carne trêmula de um transeunte bêbado em frente a um bar que lhe recusa a venda de mais uma dose. A glória imaginada anteriormente não passava agora de sombra fria sobre figuras desconhecidas, dispostas numa sala, bebendo como se não houvesse um mundo do lado de fora. Mas havia e os dois, da mesma forma que chegaram, partiram elegantemente, deixando W. solitário com suas lembranças de há pouco e com o amargo na boca das conclusões que M. martelava em sua cabeça.

Sentou-se no sofá defronte ao último relógio ainda em atividade. Os ponteiros avançavam de maneira inquieta como se previssem a parada inevitável. Já não havia mais qualquer líquido em qualquer uma daquelas garrafas cheias até poucos momentos. Não havia mais sorriso se abrindo em direção alguma, nem lábio a envolver qualquer boca desejosa do prazer de L. Não havia mais prazer na contemplação de um quadro qualquer que fosse o artista ou estilo, ou de qualquer escultura, por mais ridícula ou perfeita que fosse.

Não havia mais respiração, pois o corpo de W. jazia inerte depois dos últimos prazeres. Não havia mais o som do último relógio cujos ponteiros percorriam inevitavelmente o imenso círculo de números e sinais simétricos.

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