O último Homem da Terra Era um Cozinheiro Cego

O Último homem da Terra era um cozinheiro cego

Havia o vazio das casas que se amontoavam quase abandonadas em volta das ruas solitárias. Meninos correndo pelas ruas pertenciam a um passado já bem remoto. As missas costumeiras, na grande igreja no alto da praça, cessaram quando o último padre, já de idade avançada, abençoou uma última vez os fiéis que vinham minguando ao longo dos anos.
Não havia qualquer tipo de renovação, novos fiéis não vinham, e os poucos que restavam eram abatidos implacavelmente pelo peso dos anos. Os cães não mais se atreviam em direção às lixeiras, nem os gatos se banhavam com suas línguas ásperas quando se insinuava o sol da manhã. Havia sim uma tristeza inconsolável no semblante dos moradores que restaram, mas, ao mesmo tempo, uma serenidade, uma resignação inquestionável.

Afinal, tudo fora feito de comum acordo, quase não houve apartes nas discussões que antecederam a decisão, os poucos que assim procederam resolveram ir-se, embora voltassem conscientes de que em todo lugar era a mesma coisa, a mesma decisão. Assim, resignados ou não, deveriam apenas seguir as instruções que lhes eram dadas, comportar-se como fora estabelecido e não se atrever a nada, simplesmente esperar, não pelo inesperado, mas pelo que sabiam que aconteceria um dia.

A placa que encimava a entrada do hospital havia se desprendido, não havia médicos, não havia pacientes, apenas a poeira se acumulando sobre macas, camas, pisos e os prazos de validade dos medicamentos se excedendo pela carência de uso. Os aparelhos para exames foram-se enferrujando até que se tornaram um grande mistério pela falta de operadores. Era um museu grotesco do que fora um dia um formigueiro incessante de pessoas indo e vindo, de choros inconsoláveis e de risos que aos poucos foram cessando.

O hotel era o único prédio em funcionamento regular, mesmo que não houvesse um grande número de hóspedes, e o serviço de quarto fosse praticamente nulo. Apenas uma velha senhora cuidava dos excessos, mas há tempos não havia mais excessos e sua obrigação era próxima de zero. Apenas três hóspedes havia ali e não ocupavam necessariamente cada um uma suíte, pois o mais comum era que se reunissem num dos quartos ou qualquer outro ambiente que lhes parecesse habitável e se punham em longas conversas e mesmo em jogos que ficavam pela metade, pois não havia nenhum propósito em terminar tudo aquilo.

Não pagavam diárias, pois também não havia nenhum propósito para o suposto dinheiro que entraria no caixa, além do que o dinheiro perdera seu valor, estava nos cofres abertos da única agência bancária. Qualquer um poderia pegar e fazer o que bem entendesse, além do que havia também em todas as casas à disposição de quem quisesse. Não havia interesse, essa é a verdade, pois ninguém olhava para um futuro previsível, ninguém discutia questões econômicas de como aplicar o dinheiro que ali fosse gerado, não havia discussões sobre o tema que rondou todas as sociedades por séculos e séculos.

A comida cuja data de validade ainda não se expirara ficava ali mesmo, nas prateleiras, sendo retirada conforme a necessidade de quem por ali passasse, sem alguém ali no caixa, esperando que o cliente debruçasse suas mercadorias e, em seguida, pagasse pelo que levaria consigo. Eventualmente, as refeições eram feitas ali mesmo, sem haver o desgaste de levar tudo para outro lugar e depois ter o trabalho de limpar pratos e talheres, além da necessidade de reposição em armários ou em lugares outros.

O passeio ao mercado passou a ser um dos mais frequentes pelos moradores da cidade, pois era sim o mais prático, e isso era tudo que queriam. As farmácias tinham seus estoques próximos a zero, tinham o mínimo necessário para uma dor mais aguda, ou um mal mais significativo, apesar de que isso só é necessário em sociedades cujas pessoas estão em disputa por alguma coisa e não há nem mesmo um único alento em uma praça arborizada, ou num salão de jogos que se enche todas as tardes nubladas para as danças e as músicas de outrora, com sua linguagem monótona, enquadrando um grupo de pessoas que parecem abandonadas ao acaso.

Era uma tarde quente! O ventilador de teto avançava preguiçosamente dando voltas e voltas sem ter a mínima vontade de refrescar quem quer que fosse. Os três homens estavam dispostos em torno de uma mesa, distribuindo cartas de um baralho já gasto, sobretudo pelo fato de não terem a intenção de sair dali e ir ao mercado em busca de outro. Seria o mais simples, lá estariam os pacotes esperando por eles, bastaria pegar um ou mais, se quisessem evitar a repetição daquela inutilidade de volta e meia ir ao mercado em busca de alguma coisa. Mas isso também não era nenhum incômodo depois da decisão de anos atrás.

O silêncio mórbido dos três foi interrompido por um barulho seco vindo do andar de baixo. Em princípio, só se viraram em direção àquele som, mas não expressaram nenhum desejo de se levantar dali. Somente quando chamaram pelo nome de Amélia e não encontrando resposta, os três se levantaram e se foram, ansiosos pelo que podia ter acontecido. No chão, a velha senhora estava estirada, mas ainda respirando, com muita dificuldade, e no seu rosto havia alegria. Os três ficaram à volta dela e ela tentando dizer alguma coisa, mesmo com toda a dificuldade, a respiração ofegante e o que parecia ser uma dor intensa a lhe invadir os olhos.

            – Finalmente, já era mais que hora! Se cuidem vocês aí. – disse ela com certa dificuldade, mas feliz.

            – Acho que nem tenho o direito de perguntar se quer que a gente faça alguma coisa… – disse o que parecia ser o mais novo daquele trio tão improvável quanto à chegada de uma ambulância ali para prestar socorro.

Nada se ouviu, nem o telefone que, àquela altura já estava desligado fazia tempo. Não havia para quem ligar, não havia o que fazer, exceto dar um enterro digno àquela mulher, mesmo todos sabendo que breve não haveria ninguém ali para testemunhar se foram dignos ou não.

A mulher ainda disse algumas palavras que pareceram meio fora de propósito a uma pessoa que deixa este mundo.

            – Valeu cada momento, cada decisão que tomamos! Não creio que a gente vá se ver de novo, porque não estamos de mudança.

Os outros dois, que nada haviam dito até aquele momento, simplesmente abaixaram as cabeças e começaram a rir descontroladamente. A mulher, que ainda tinha um sopro de vida, também sorriu. Apenas o que dissera algumas palavras ficou sério, mas sem recriminar ninguém. Ele se levantou quando percebeu que ela tinha dado o último suspiro e, juntamente com os dois, providenciaram o transporte do corpo.

Não houve necessidade de uma funerária por perto, já que não se afastavam muito de onde se hospedavam e providenciaram caixões que ficaram já à disposição das eventualidades como a que acabara de ocorrer. Fizeram os preparativos e levaram o caixão até o local adequado ao sepultamento. Não era propriamente um cemitério, era apenas o quintal de uma casa em frente ao local onde estavam, mas era o que tinham decidido. Os corpos não ficariam expostos ao tempo, inclusive às ações de animais que pudessem passar por ali, mas também nada de excessos, de sofisticações. Tudo se apresentava simples como tinham acertado.

O resto do dia foi consumido no bar do hotel que ainda funcionava de maneira precária e velhos filmes numa televisão alimentada por um aparelho desses que têm algumas possibilidades de ainda transformar em imagem alguns dispositivos que lhe são introduzidos. Os filmes eram sempre os mesmos, já que há muito não se produzia nada de novo. Os estúdios foram fechando, os canais de TV foram saindo do ar, as livrarias já não mais existiam, o que se encontrava eram os mesmo clássicos de outrora que fizeram tanta gente sonhar e imaginar um novo mundo. O que se via, no entanto, ali não era exatamente o que as mentes mais férteis haviam imaginado.

Um dos três moveu-se para a frente, onde havia um maço de cigarros, tirou um e acendeu. Após uma longa tragada foi interrompido por um dos outros dois.

            – Você não tinha parado com isso?

            – Sim, há vinte anos… – respondeu tranquilamente.

            – E por que isso agora?

            – E por que não? – questionou, com indiferença.

O silêncio foi a resposta. Simplesmente não houve argumentações, uma vez que cada um tem a liberdade de escolher a forma como vai deixar este mundo.

Os três passaram a tarde ali em frente à velha TV, mal trocando palavras, cada um ensimesmado, relutando até em olhar para os vizinhos. Já haviam se acostumado àquele quarteto, apesar de cada um ter suas ocupações. Agora não mais haveria a única presença feminina por ali. Mesmo tendo já ultrapassado várias barreiras da existência e não despertando mais o interesse daqueles homens, ela era a única e agora simplesmente deixava de existir.

A noite prometia bem mais que as luzes coloridas acesas ali no imenso salão do hotel que certamente recebera várias dessas festas em seus tempos de glória. Não havia grande movimentação, apenas dois homens desfilavam em seus fraques, sorrindo um para o outro, como se estivessem esperando a entrada triunfal de inúmeras estrelas do cinema pela porta da frente, entalhada em madeira de lei, que já começava a dar as primeiras mostras de desgaste. Mas nem por isso perdia sua majestosa elegância e testemunhava de maneira soberba os convidados que por ali passavam, ou mesmo simples hóspedes em algum momento festivo do hotel. Pelo borbulhar do líquido nas taças, os dois bebiam champanhe e desfilavam de um canto a outro, fazendo gestos em direção a pessoas imaginárias.

Após se movimentarem com insistência, decidiram por se sentar à grande mesa que já estava posta para um inusitado jantar. O chef amador, que nunca tinha colocado em prática os inúmeros conhecimentos adquiridos em vários programas que povoavam os canais de TV em tempos passados, era o responsável pela cozinha naquela noite. E ele quis fazer algo diferente, mesmo porque nunca tinha feito algo assim.

Durante sua vida, dedicara-se à pesquisa de plantas, suas propriedades e mesmo seus efeitos como alucinógenos, além de possíveis venenos. Poderia ser dito que ele tinha saído daquela década em que os hippies tomaram conta do mundo com suas propostas de paz e amor e coisas do gênero. Ele estivera lá, e agora, no outono de tudo, decidira visitar o que foi seu trabalho um dia e ver se de fato tinha valido a pena acumular todo aquele conhecimento. Mas, ao mesmo tempo, acreditava que não era hora de julgamentos dessa natureza. No entanto, procurou pelos ingredientes que eram possíveis de ser preparados, buscou plantas que ainda cultivavam ao menos para não perecerem de uma vez por todos, já que os alimentos enlatados já davam mostras de se decomporem, devido ao tempo que os últimos aparelhos de conservação eficazes já tinham sido desligados.

Reunido tudo de que ele precisava, pôs as mãos à obra e começou a elaborar alguns pratos que ele julgava possíveis. Na cozinha, sentiu-se como um maestro combinando tudo como só os grandes músicos, devidamente dirigidos, é claro, sabem combinar. Um pouco de música também não fez mal e ele ouviu Chopin, precisamente os prelúdios que o acompanharam por toda uma existência. Depois de horas a fio naquela labuta, ele finalmente concluiu sua obra e era o momento de anunciar que tudo seria servido. Lá no salão, os convidados já estavam impacientes, pois desde a partida da única mulher que ali havia, não tinham tido uma experiência como aquela e, portanto, andavam de um lado a outro, até o momento em que o cozinheiro invadiu o salão, abriu um largo sorriso e sentenciou.

            – O jantar será servido de imediato! Por favor, ocupem seus lugares!

Olharam a um canto e não havia música, pois a orquestra já tinha sido dispensada há muito tempo. Mas nada que um bom aparelho de som não possa prover, e nisso também o cozinheiro tinha pensado e providenciou a música. Assim, a felicidade parecia ser a tônica daquele momento e uma nova garrafa de champanha foi aberta e todos beberam num brinde simbólico ao que iriam comer, a grande obra do grande chef, ainda um ilustre desconhecido no campo da gastronomia e, destino traçado, não seria nunca conhecido, a não ser que ele próprio deixasse isso ali registrado. Vaidades à parte, foi servida a entrada e, em seguida, o prato principal, composto de inúmeras folhas de cores diferentes e sabores diversos.

            – Pensei em algo mais leve, afinal, devemos pensar na saúde… – ponderou ironicamente o chef.

Uma sonora gargalhada foi ouvida somente pelos três, e dada por eles mesmos. Aprenderam a rir de si mesmos, o que é a melhor forma de se viver. Provavelmente, o fígado, nesses casos, é o último a parar de funcionar. Mas junto com aquela imensa salada, havia também algo de outros reinos, o que dava um tempero diferente. E todos se puseram a comer, exceto o cozinheiro que ficara de pé, com sua taça de champanha, bebendo devagar e observando os outros dois se saciaram compulsivamente.

A sobremesa não chegou a ser servida, pois algum tempo depois estavam os dois ali apoiados sobre a mesa com os olhos perdidos na imensa parede ocre à frente deles, enquanto as cortinas, já corroídas pelo tempo, balançavam por trás das janelas de madeira. Os dois não tinham mais vida. O cozinheiro olhava para os dois com um olhar de não entender absolutamente nada ou de entender tudo e ser a única testemunha possível. Não haveria perícia para saber a causa das mortes, mas uma das folhas chamou a atenção do velho cozinheiro. Nos seus tempos de botânico, aquela folha era das mais temidas por seu alto teor de veneno.

Mas já fazia tempos que ele não recorria a seus livros e pegara aleatoriamente as folhas no pequeno canteiro, sem se importar com aquela que se insinuava por entre as outras, vinda do outro lado da cerca e sorrateiramente se destacando pela sua cor intensa e seu cheiro sedutor.

O cozinheiro ainda olhou para ela, mas nada era possível de ser feito, só mesmo reconhecer que aquela planta tinha sido a causa da morte. Num gesto mais que inesperado, ele ergueu a taça, depois de enchê-la novamente, e brindou aos outros dois. Saiu tranquilamente, após apagar as luzes do salão atrás de si, afinal os mortos não precisam de luz e sim de paz. Lá fora, havia promessa de chuva e ele se dirigiu ao seu quarto, observou cuidadosamente se tudo estava exatamente no seu lugar e deitou-se. Seu sono foi profundo.

O tempo passou como sempre, sem trazer nenhuma novidade àquela alma solitária diante de um copo de uísque mais que envelhecido, pois há muito havia deixado de ser fabricado e só restava o estoque no mercado a que recorria quando buscava algo diferente para saciar até mesmo a curiosidade. O cigarro, em uma das mãos, indicava o retorno do vício depois de anos a fio retido apenas na memória, quando se considera que o vício é muito mais um hábito de repetição que se insinua pelas fendas da memória e do pensamento e não, como pretendem alguns, uma ligação com algo físico. Mas não há de interessar qualquer discussão dessa natureza, simplesmente por não haver elementos suficientes e adequados para uma pesquisa como essa. O velho cozinheiro está ali, parado, fumando, tomando seu uísque sem uma única pedra de gelo, pois isso havia deixado de existir.

Um tímido fio de sol entra pela janela que desponta ao final do velho corredor, percorrido insistentemente nos últimos tempos, como uma caminhada costumeira a um jardim florido. O desgaste no chão de madeira é nítido, as cortinas na janela parecem se segurar em desespero, restos de comida se acumulam no canto da porta. Ele, por sua vez, tem a rotina de colocar ao lado de fora, em uma bandeja, o que não ingeriu durante as refeições. Naturalmente, espera por um criado imaginário que irá recolher tudo, mas isso é só a imaginação de quem olha para os restos que se acumulam e percebe que há restos de tempos que se esquecem, por terem sido há muito tempo. Não há odores, pois ele mesmo se encarrega de borrifar algo que impedirá o ar de ficar corrompido. Afinal, a dignidade deve ser a companhia mais constante a ser desfrutada a qualquer tempo.

Ele anda vagarosamente, pois já não tem a destreza de outrora, seu corpo é apenas o fiapo magro do que já foi um dia, ao menos é o que diz o retrato cuidadosamente dependurado ali no quarto, e se aproxima da janela ao fim do corredor. Com suas mãos trêmulas ele abre a janela e seus olhos há muito tomados pela escuridão do interior do hotel são assolados pela intensidade da luz do sol. Naquele momento, ele não vê absolutamente nada, nem a fragilidade da madeira da janela. Suas pernas penam para sustentá-lo e ele, involuntariamente, avança à frente e o que ocorre é visto simplesmente como uma fatalidade, mas não há ninguém para ver. O desequilíbrio toma conta do corpo já combalido e ele cai de uma altura considerável a alguém naquele estado. Lá embaixo, acostumando os olhos à nova realidade, dá uma última olhada e o sol parece sorrir para ele e, em seu delírio, imaginando que seja um sorriso de gratidão. Em seguida, apagam-se as luzes em definitivo. De agora em diante, não há testemunhos de mais nada, simplesmente o que a mente é capaz de construir na sua habilidade inquestionável.

Lá se foram uns bons meses desde que o cozinheiro serviu os amigos e depois teve o infortúnio de cair do segundo andar e quebrar algumas partes que, àquela altura, seria impensável a recuperação. As folhas, em sua intromissão, sobretudo quando não são cortadas, já haviam avançado, tomando as paredes do prédio onde ficava o hotel e, da mesma forma, todas as paredes que ainda se seguravam de pé.

Um velho cadillac, que já estava estacionado a um canto da rua fazia algumas décadas, mantinha apenas um dos faróis que não estava quebrado como testemunha do que fora uma rua, de onde se alinhavam casas e casas e pessoas nas calçadas, com suas roupas que, por fim, deixaram de ser consideradas moda e estavam mais para um desfile do que fora um dia, de um passado que não fazia mais sentido, exceto pela boa música e por toda manifestação artística que se podia apreciar.

Logo, não restaria mais nenhum vestígio do que houve por ali, pois a natureza, com sua agressividade típica, invadiria tudo e se tornaria de novo soberana. A decisão que os habitantes do lugar tomaram um dia também não faria mais qualquer sentido, pois haveria apenas a natureza a contar a história do seu ponto de vista, do seu equilíbrio, tendo sido somente ameaçada por quem um dia andou por ali.

                                                                     FIM

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