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O Arquiteto de Stalin

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Com seu olhar aquilino, seu rosto arremessado à frente, uma mistura de curiosidade e admiração, Pedro Barinsky caminhava com passos firmes, determinado, indiferente aos cães e gatos que por ali circulavam e mesmo aos menos favorecidos que esticavam seus chapéus ou o que quer que fosse para ver se eram agraciados por uma pequena migalha.

Pedro nem se dignava a olhar os que estavam abaixo, pelo contrário, censurava aquelas criaturas em trajes puídos, mãos sujas, rosto carcomido pelo tempo. Julgava-os destoantes do ambiente do qual ele tanto se orgulhava, uma vez que tinha projetado tudo a seu redor. Por isso, a cada manhã, era sua rotina, caminhar olhando os detalhes daquelas construções, até chegar ao seu escritório, propositadamente, no último prédio, que, para ele, era o último a ser apreciado.

Entrava quando lhe abriam a porta com cerimônia, acreditando assim não fazer uso indevido de suas mãos que deveriam ter um só propósito, o de projetar obras de arte.

Ele era um sujeito elegante, vestia com equilíbrio o corpo esguio, com quase dois metros de altura. As mãos que traçavam as linhas com precisão sobre a tela pareciam ter traçado o corpo daquele homem. Cabelos claros, bem como os olhos, inspirava sonhos e desejos incontidos no sexo oposto.

Pelo que se sabia dele, sendo bastante reservado, é que nunca havia se casado e morava sozinho num apartamento aconchegante em uma dessas ruas para as quais não se dá muita importância, mas são capazes de esconder o que há de melhor no prazer da intimidade. Havia boatos, havia suspeitas, mas nunca externados publicamente, apenas pelos cantos, o que para muitos não passava de inveja.

Pela hora do almoço, sentava-se sempre à mesma mesa, no mesmo restaurante, na imensa alameda. Obviamente o restaurante era um projeto dele, bem como a cadeira da qual se servia, além dos torneados das mesas, equilibradamente distribuídas pelo ambiente. Comia sempre sozinho, não gostava de ser incomodado até que, num desses momentos inesperados, uma mulher se aproximou da mesa onde ele estava, atreveu-se a projetar-se na direção dele, falando de uma forma que não lhe deixou alternativa.

– Posso me sentar aqui? – perguntou ela com sua voz suave e incisiva.

Não havia nada a se fazer, exceto concordar com um gesto de cabeça. Por certo, ele a observou nos mínimos detalhes e seus olhos emanaram uma luz como a de uma pessoa que nunca vira outra pessoa como aquela. Quando ela falava, suas palavras pareciam vir em ondas das quais ninguém consegue se livrar e acomodavam-se suavemente nos ouvidos do outro e ali permaneciam pela eternidade ou mesmo além dela. Seus movimentos de corpo eram de um conjunto harmônico sem que houvesse qualquer coisa que pudesse estar fora de lugar. Ele só conseguiu dizer:

– Aceita uma taça de vinho?                                      

– Chardonnay, de preferência… – respondeu ela, sensualmente!

Arquiteto de Stalin
O Arquiteto de Stalin

O garçom pareceu ter sua mente invadida ou mesmo que já houvesse semelhante informação antes, pois ali já estava, quando ela pronunciou a última sílaba, com uma garrafa já aberta e na temperatura ideal. Ele colocou a medida exata na taça diante dela e ela bebeu com toda a volúpia possível a uma mulher com aquela beleza. Não deve ser difícil imaginar o que passou pela cabeça de Pedro, mas deve ter sido algo como, finalmente encontrei o modelo perfeito, que nada pode alcançar ou substituir.

Beberam, riram, conversaram, almoçaram como se fossem velhos amigos ou amantes, na falta de um termo ainda mais apropriado para aquele par que parecia fugir das convenções, do simples tocar a terra como os demais mortais fazem. Depois se despediram, não sem antes planejar o que viria depois e ela se foi da mesma forma como veio, sumindo numa neblina imaginária e, súbito, fora do alcance de qualquer visão.

Ele voltou ao escritório, mas não conseguiu produzir tanta coisa, demonstrando aflição pelo passar das horas, pela proximidade do momento de voltar para casa. E foi o que fez tão logo julgou que as horas já passadas assim o permitiam.

O tempo não fazia sentido naquele momento, não podia ser calculado, o que se sabe é que ali estava ele de banho tomado, com roupas mais confortáveis do que as do dia a dia, com um copo de Martini à sua frente, pela metade, uma pequena cereja mergulhando e subindo alternadamente, um miolo de pão integral como um tira-gosto improvável. Do pão descobriu-se logo a serventia, quando um pássaro pousou na janela. Isso mesmo, ele tinha fixação por aqueles pequenos seres com seus olhares penetrantes e suas asas coloridas equilibradamente como se fossem desenhos simétricos perfeitos, produzidos não pela mão humana, incapaz de tantos detalhes precisos como aqueles. O melhor seria atribuir tal façanha a um ser superior, isso para não se perder em pensamentos e deixar de usufruir da beleza daquela criatura com seu ruflar compassado de asas. Pedro, colocando as migalhas sobre o parapeito e o pássaro, tendo seu humilde prazer se comparado à beleza que sua plumagem mostrava.

Pedro distraiu-se por um instante com a chegada da mulher, cujo nome ele ainda não sabia, na ânsia de conversar tudo na hora do almoço. Ele se dirigiu à porta e, quando olhou para a janela, ela já estava vazia, o pássaro tinha batido asas e ele sorriu meio que sem jeito pela perda daquela visão que ele tanto apreciava. No entanto, ali à sua frente, uma imagem que fazia parelha com a do pássaro. O pássaro e a mulher pareciam a mesma imagem, apresentada de diferentes formas.

Ela se adiantou, como se quisesse preencher uma lacuna imaginária.

– Esqueci de dizer, Galatea a seu inteiro dispor!

Pedro tinha os olhos afetados por aquele comportamento, pela elegância da informação que lhe chegava, pelas palavras quase expostas numa pauta musical como notas na melodia. Não houve mais nada a se dizer e os dois se abraçaram e se envolveram por momentos intermináveis, por lençóis remexidos, por incontáveis bebidas de sabores ácidos e doces como a visão e a escuridão. Já recompostos, depois de tempos que pareceram intermináveis, os dois se encararam como se fosse a primeira vez.

– Quem de fato é você? – pergunta Pedro desejoso de uma resposta que lhe agrade, que não o deixe andar numa linha frágil e absurda.

– A sua maior imaginação e a sua maior prisão! – respondeu ela…

– Hahahahaha – gargalha Pedro!

– Sou todas as suas obras, suas esculturas, suas pinturas e também o pássaro que voa para a sua janela todas as tardes, quando você toma sua bebida e oferece o pão para o viajante alado – continuou Galatea pausadamente.

Ela vai dizendo as palavras que martelam agora a cabeça daquele homem, ao mesmo tempo que vai se recompondo e fazendo menção de ir embora. Ele, por sua vez, não está tão senhor de si, está a um canto, um animal acuado, mas sem perder o olhar de quem tudo domina.

– Você não pode ir embora assim! – diz ele, alterando a voz.

– E por que não? Acaso ainda não aprendeu que você não pode aprisionar todas as coisas, aí inclusa a beleza! Isso é para ser experimentado, apreciado e não dominado! A beleza não é feita para ser prisioneira, nem ao menos dos olhos! – conclui Galatea.

Ela, por fim, pega a sua bolsa, último detalhe que ainda faltava para compor a sua personagem inteira e sai, deixando boquiaberto Pedro que luta consigo para acreditar naquilo que tinha acabado de acontecer. Ele também se veste e se dirige a um outro cômodo da casa, mais precisamente para onde, ainda há pouco tomava sossegadamente sua bebida e dialogava com o pássaro que já o vinha visitando com certa frequência.

E lá estava o pássaro novamente, com sua elegância, seu bico perfurante e seus olhos de caçador, observando a presa na areia movediça. Os dois se olham, se examinam, homem e pássaro e o bichinho tão inofensivo entende o que passa na cabeça daquele homem que busca algo para prender o que não deve ser aprisionado. Ele voa decidido em direção a Pedro e, sem que haja reação efetiva, perfura os dois olhos do homem. Ele expressa toda a dor que lhe confia aquele gesto e esfrega os olhos que agora são apenas duas pequenas poças de sangue.

É de manhã, Pedro não tem mais os passos firmes e decididos de outrora, caminha tateando com sua bengala por entre os canteiros e os perfumes da alameda que ele mesmo projetou não faz tanto tempo. Os animais se manifestam com latidos e miados quando percebem sua presença. Os sons que eles emitem têm um sabor de pena por aquele que anda com dificuldade, embora também contenham uma alegria dolorosa.

Os que se amontoam embaixo e pedem migalhas calam-se, pois pelo menos eles ainda podem ver as imensas torres da igreja que se elevam aos céus, na tentativa de enviar uma mensagem para quem está lá no alto. Somente Pedro, que um dia quis aprisionar tudo, agora pode se gabar de que tudo está dentro dele, retido em sua memória, pelo menos enquanto ele tiver memória e ela não se perder com o tempo como tudo se perde. Na mesa do restaurante, agora há um jovem arquiteto, um jovem talento, mas também lá está Galatea com sua elegância e sua eterna missão de convencer os outros da fugacidade da beleza.

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