Realismo Fantástico – ME CONTE UM CONTO https://meconteumconto.com.br Sat, 21 Mar 2026 18:01:20 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9.4 https://meconteumconto.com.br/wp-content/uploads/2026/02/android-chrome-512x512-1.png Realismo Fantástico – ME CONTE UM CONTO https://meconteumconto.com.br 32 32 Na solidão do mar profundo https://meconteumconto.com.br/na-solidao-do-mar/ Sun, 22 Feb 2026 21:16:21 +0000 https://meconteumconto.com.br/?p=107 por: Benício Gon

Ultimamente Fromilda andava pensando no pai com mais frequência. Baldênio vazou de casa para nunca mais quando ela tinha apenas seis anos de idade, sem se comover nem um pouquinho com seu choro pueril. O genitor era um homem do mar, um pescador obcecado por tirar das águas salgadas monstros cuja maioria da humanidade só conhecia por relatos de marujos embebedados em tabernas escuras espalhadas pelo mundo. No fatídico dia em que fugiu de suas responsabilidades, ele acabou por cumprir a profecia da sogra. A velha maledicente repetia a cantilena todo santo dia à filha: Esse traste não é capaz de bancar casamento nem de constituir família, o negócio dele é bebedeira e semvergonhice com essas putas da rua!… Ingrácia era faladeira, mas tinha lá certa razão. O genro possuía uma natureza oceânica, a terra o carcomia de ferrugem – sua estabilidade tediosa dava-lhe náuseas. Além de tudo, misturar aquela vida aventureira aos carinhos das mulheres que o desejavam sem fazer exigências ou críticas acenava como uma possibilidade bem mais agradável.

            Mazelas à parte, em seu parco arcabouço de lembranças paternais Fromilda guardava com carinho as vezes em que ele pacienciosamente a colocava no colo para lhe contar histórias de pescadores, cheias de aventuras épicas as quais protagonizava, derrotando leviatãs, baleias assassinas e outros seres que habitavam seu imaginário. O mar esconde tesouros, assim como guarda os mais terríveis pesadelos, minha filha. – dizia com ar professoral, o pingente de sereia reluzindo no cordão pendurado ao pescoço.

            Certo é que Fromilda se metamorfoseara numa adulta troncuda. Seu pai, com toda a Certeza, não conseguiria mais sustentá-la por tanto tempo no colo nem teria mais complacência para atualizá-la a respeito das últimas ocorrências na jurisdição de Poseidon. O marinheiro fujão havia deixado tudo para trás não só pela vida boa do cais, mas também por suas constantes empreitadas marítimas. Sujeitinho vaidoso/ambicioso, Baldênio tinha como sua Polaris a busca por grandes feitos, sendo assim, pode escrever aí que ele não soltaria desse leme de jeito nenhum.

            Tudo bem, tudo certo… mas para ela nada disso fazia sentido. Em que cartilha estava escrito que seu pai, o herói invencível da sua história seria capaz de ir embora, deixando uma menina órfã de carinhos e de novas aventuras, chorando na soleira da porta? Mundo injusto demais, meu Deus!

            Longe da atenção paternal, Fromilda seguia seu cotidiano de formiga trabalhando como cortadora numa modesta fábrica de calçados. Sua atividade laboral se resumia a fatiar o couro obedecendo ao contorno da silhueta dos moldes usando uma lâmina afiadíssima, o que exigia da moça bastante destreza. Costumeiramente, durante o loop infinito de cortes precisos, seus pensamentos saiam dali, visitando lembranças a respeito de fatos que havim esquecido de acontecer. A cadência do seu cotidiano respeitava a marcação da sirene escandalosa instalada na fabricazinha, que a avisava da hora de começar a trabalhar, comer ou ir embora para sua miséria existencial. Na volta para casa, sempre passava no supermercado para comprar o que podia e admirar o que não podia. Uma vez ficou por quase meia-hora bestificada com o preço de um pedaço de queijo francês (metade do seu salário). E olha que o danado pesava por volta de duzentos gramas… Ser rato em Paris está pela hora da morte! – gracejou em pensamento.

            Às vezes ficava parada num dos corredores entre as gôndolas para observar as câmeras de segurança. Ficava por ali imaginando se estavam mesmo ligadas ou se o responsável pela segurança monitorava cada passo seu, pronto para acionar os alarmes caso a falsa consumidora fizesse algum movimento suspeito que colocasse em risco a segurança nacional. Talvez o malandro estivesse tirando uma soneca, cantando uma colega de trabalho mais acessível ou mesmo fazendo hora no banheiro. Vai saber. O certo é que ela ficava intrigada com tantos olhos artificiais lhe dedicando uma atenção que não recebia das pessoas.

            Em seu tedioso ritual de sobrevivência sempre comprava as mesmas coisas: um pacote de macarrão instantâneo, dois pães e um bombom para comer depois do jantar, para fechar o dia com chaves de ouro. Seu ritual incluia o flerte com uma imensa esfera de plástico transparente pendurada por um arame amarrado ao teto, que ficava girando segundo a vontade do vento. Justamente por ser translúcida, a gorducha exibia as centenas de bombons que compunham aquela deliciosa alma. Em seus delírios gastronômicos, ela se imaginava minúscula ali dentro, se acabando naquele universo de chocolate. O céu, segundo concebia, deveria ser abarrotado de câmeras atenciosas, queijos com preços acessíveis e divagações imbecis envolvendo chocolate.

Tá certo, nossa personagem vive essa vidinha mediocre que foi porcamente apresentada até aqui, não obstante, aconselho cautela. É de conhecimento geral que o destino quando cisma, faz tudo se modificar de uma hora para outra e não faz distinção entre classes. Com isso em mente, temos que, mesmo uma criaturinha desgraçada como Fromilda, poderia ser vítima de uma virada de mesa daquelas, onde nenhuma peça do tabuleiro ficaria em pé.

_oOo_

            Eu estaria mentindo se dissesse que haviam muitas cortadoras de couro no setor de calçados daquela região. O serviço bruto estragava as mãos. Quem prezasse por uma pele decente dispensava a atividade de chofre. Fromilda não ligava para isso: era pau pra toda obra, não rejeitava serviço e, quando ofereceram o desafio de gastar o corpo naquele trabalho torturante, ela aceitou de imediato. Para a garota não existia dinheiro difícil de ganhar. Difícil era aguentar a mãe reclamando em lá maior quando faltavam uns trocados para inteirar na compra do pão – quando a genitora (dramática como o quê) inaugurava sua ópera de muxoxos fazia até monge tibetano sair de perto, praguejando. Certo é que a cortadora ficou tão boa no trabalho que colocou todos os outros colegas no chinelo. A danada era procurada para dar consultoria sobre tudo que se referia ao tema na fábrica. Disciplinada, estava sempre em seu posto no horário determinado e só saía do serviço com o apagar das luzes do galpão.

            Naquele dia, estava especialmente perturbada com as lembranças do pai, o espectro que assombrava sua vida. Em certo momento, podia jurar que havia sentido cheiro de maresia, de peixe fresco saracoteando na areia seca o que a levou a acreditar que estava enlouquecendo. Mergulhada nesses pensamentos que desenhavam fractais nostálgicos em sua mente, acabou por se cortar feio. Pudera! Até a mais inocente das criaturas sabe bem que divagações sobre o passado nunca combinaram com o manuseio de lâminas afiadas.

– Tudo bem aí Fromilda? Machucou? – inquiriu um conhecido, preocupado com a situação.

– Não, tudo bem.

            O corte foi superficial, mas doído que só. Estancou o sangue por alguns minutos debaixo de uma pia suja ali por perto, correndo para fazer um curativo improvisado com o que estava à mão. Tinha de andar rápido com aquilo, pois não dispunha de tempo para sentir dor. A trabalhadora recebia por produtividade e o dinheiro necessário para fazer sua compra diária no supermercado ainda precisava ser ganho.

Acostumada àquela rotina de barulhos enlouquecedores, cortes ardidos e cheiros em constant profusão, Fromilda voltou para sua labuta a todo vapor. Como antídoto para encarar aquela realidade devastadora foi logo colocando seu escafandro imaginário qualhado de pensamentos intrusivos.

            O restante do dia transcorreu normalmente, salvo um único detalhe: estava com uma coceira na perna direita que dava gosto – quanto mais coçava, mais a vontade de escavar a pele com as unhas lhe atormentava. Sentiu até o local inchar, o que a obrigou a passar na farmácia para comprar uma lata de pomada Minâncora, que, segundo sua mãe, curava até dor de amor.

            Ao chegar em casa, foi direto para o banheiro com o mote de tomar um banho, pois estava bastante cansada. Além disso, a urticária na perna estava lhe corroendo as carnes. Estava louca para deitar remédio na chaga.

            Foi tirando a roupa rapidamente quando, ao olhar para a sua perna direita, tomou um susto: a área que coçou estava bastante inchada, formando elevações de textura estranha. Havia se formado

uma espécie de escarpa ressequida, coberta por pequenas elevações semelhantes a escamas. Passou um tempo alisando o local, tentando entender aquela condição bizarra até se acalmar. “Acalmar” talvez não fosse a expressão mais adequada, melhor seria se dissesse “conformar”. Após o banho, besuntou o local generosamente com a pomada à base de cânfora, seguindo as indicações da mãe que tinha bem mais juízo que ela.

            Como de costume, após o Jantar, elas se acomodaram na sala cada uma no seu local predeterminado, pois naquela casa não se admitiam violações de conduta de qualquer natureza. A novela estava morna e, como Fromilda se via encharcada de divagações, resolveu cutucar a mãe:

– Mãe…

– Fala filha – respondeu Joserlânia sem tirar os olhos da TV.

– Posso lhe perguntar uma coisa?

– Fala.

– A senhora amou meu pai?

            Vixe… agora Fromilda tinha se enfiado em confusão. Tirar a concentração da mãe no momento sacrosanto em que estava assistindo à sua novela era considerada uma falta imperdoável. Ainda mais para tratar de um assunto daqueles. Com o semblante transfigurado, como se uma entidade tivesse se apossado dela, retorquiu:

– Que conversa é essa Fromilda? Bebeu?

– Queria só saber mãe.

– Pergunta de gente enxerida. Amou?! Que conversa é essa meu Deus?!

– É normal a gente ter filho com quem ama. Pelo menos eu penso assim.

– Pensa isso porque é menina boba, inocente, igual eu fui! Vai tirando essas ideias da cabeça, foi pensando assim que eu vim parar aqui nessa maloca! Vai arrumar o que fazer!

            A moça se remexeu no sofá, escolhendo uma posição mais confortável para um novo bote:

– Vi outro dia uma foto da senhora com ele, uma que está dentro da gaveta do armário lá no seu quarto. Vocês pareciam felizes.

– Intrometida! Indecente!

– A senhora não estava feliz?

– Claro que estava, burra que só! – cedeu Joserlânia, se enrolando feito uma cobra –Namorono começo é tudo uma maravilha. Ilusão da desgraça.

– O pai era bonito né? Roupa de pescador, tatuagem nos braços, bronzeado; um bigodão estiloso…

– Para com essas bobagens menina! Grandes coisas. De que adiantou aquela beleza toda? Não estou aqui sozinha? Hum… só me faltava! Pensa bem: bonito daquele jeito, mas preferiu ficar lá no meio daqueles peixes fedidos dele do que constituir família, viver como Nosso Senhor Jesus Cristo ensinou. Um canalha, isso sim.

– A tia Libéria disse que eu sou a cara dele.

– Sua tia Libéria devia parar de tomar conta da vida dos outros e prestar mais atenção naquele marido cachaceiro dela. Ia ganhar mais. O traste vive dando em cima de tudo quanto é mulher na rua. Nem parece que é minha irmã aquela lá. Mexeriqueira. Você sempre pareceu com sua vó, não herdou nada daquele herege, graças a Deus.

            Fromilda sabia que a pergunta que faltava teria como possível consequência um rombo considerável no casco do seu batel, mas ela tinha de tentar. Quem sabe a mãe lhe estendesse generosamente a mão com uma resposta a contento? Isso aliviaria bastante a pressão das suas dúvidas, levantaria a válvula daquela panela de pressão para o vapor sair, devolvendo-lhe a paz. Tentou:

            – Por que o papai foi embora?

            Quem avisa amigo é… estava na cara que isso ia acontecer. O caldo entornou. A mulher ficou com o rosto enrubescido como se uma espécie de melaço de sangue subisse do pescoço para a testa, contrariando as leis da física. Revoltada com o interrogatório invasivo da filha, deixou as palavras virem à boca em aluvião:

            – Escuta bem o que vou te dizer, menina insolente: aquele inútil foi embora porque não queria viver como homem honesto, com a responsabilidade que a família trouxe pra ele. Era um egoísta, um crápula sem coração. Saiu de casa com você chorando, se agarrando nas barras das calças dele! O amaldiçoado nem ligou, se afastou de você igual a gente se afasta de um cachorro sarnento de rua. Eu nunca vou perdoar aquele desgraçado por ter saído assim, por não ter assumido a família que Nosso Senhor tinha reservado a ele. Só quero que Deus me abençoe minha filha com muita saúde para que dê tempo de assistir àquele maldito comer o pão que o diabo amassou com o rabo. Que ele arda no fogo do inferno com os exus dançando em volta! Olha, você acabou me tirando até a vontade de ver minha novela. Vou dormir, porque assunto de Baldênio aqui em casa já deu! Boa noite!

            Foi o tempo de sair a passos largos em direção ao quarto e bater a porta para Fromilda cair no choro. Não entendia como aquele casal bonito da foto podia ter se transformado em dois inimigos mortais. Ódio de gente mal amada não tem fim – pensou.

            Mesmo com as observações a respeito do pai, ela ainda o queria por perto. Sentia falta daquele bigode de piaçava, da pele curtida de sol e até mesmo do pingente de sereia. Depois de algumas horas remoendo os acontecimentos resolveu passar a noite por ali mesmo, pois finalmente havia encontrado posição em que a urticária dava trégua.

_oOo_

            Corriam sete dias riscados no calendário sem que Joserlânia lhe dirigisse palavra. Fromilda entrava e saia de casa como se fosse invisível, a mãe não lhe perdoava a ferida que a filha lhe tinha aberto com aquela perguntação. Fora do roteiro, só mesmo as coceiras persistentes. O mais engraçado era que ela parecia ficar mais agressiva quando a garota se feria no trabalho, aquelas bactérias amaldiçoadas pareciam se alimentar dos taios em seus dedos. As chagas se espalhavam em diversas áreas, causando-lhe vergonha. Em casa, mesmo em altas temperaturas, usava moletom e meias para cobrir as escaras. O pior era que o calor produzido pelo excesso de roupas parecia eriçar ainda mais as coceiras, fazendo surgir novas escamas.

            No segundo domingo de fevereiro (fazia um calor dos infernos) Fromilda resolveu que aquele distanciamento entre as duas deveria ter um fim. No meio do almoço familiar, tomado por um silêncio sepulchral, ela falou, solar:

            – Sabe, mãe, estou com vontade de dar uma volta na praia. Vamos?

            Para Fromilda aquela era apenas uma pergunta inocente como outra qualquer, com a intenção de trazer a mãe para perto de si novamente. Para Joserlânia, não foi bem assim:

            – Você é uma cínica mesmo, igual ao seu pai – respondeu raivosa após uma golada de suco.

            – Como é?!

            – Cínica, sem-vergonha, safada igual ao seu pai.

            – Eu só estava tentando fazer as pazes!

            – Fazer as pazes?! Tá bom. Me levando para a beira do mar, onde aquele demônio mora? Eu prefiro a morte do que chegar perto daquele ambiente.

            – A senhora está sendo injusta!

            – Injusta? Sei… sua tia Libéria além de futriqueira era cega: não é só fisicamente que vocês dois se parecem, vocês são iguaizinhos também por dentro. São cruéis, se merecem.

            – Não fala isso!

            – Falo sim!

            – Eu só queria que fizéssemos um passeio para nos distrairmos, conversarmos, nós…

            – Eu não quero conversar com você! – interrompeu transtornada.

            – A senhora é minha mãe, eu te amo.

            – Ama muito Fromilda, ama muito! Você vai amar é a rua. Pegue suas coisas e saia das minhas vistas agora!

            – O quê?!

            – É isso mesmo que você ouviu, vá procurar sua turma, me deixe sozinha em minha casa!

            Joserlânia publicou seu decreto jogando o prato de comida ainda pela metade na pia para se trancar no quarto. Depois de alguns minutos de choro, Fromilda obedeceu à mãe como uma boa filha faria: juntou suas roupas em duas mochilas velhas e partiu para longe dali, não sem antes se aproximar da porta do quarto de Joserlânia para declarar seu amor novamente.

            O sol estava causticante. Sem ter destino certo resolveu ir até a orla marítima para pensar no que faria. Aproximou-se da água, jogou seus alfarrábios na areia e se colocou a pensar onde o pai estaria naquela imensurável galáxia salina. Emocionada com sua condição ainda sem entender como chegara até ali, ela chorou ainda mais… chorou sem data de vencimento, compulsivamente, até adormecer.

Horas depois, sentindo a pele sendo dilacerada por toda aquela soda cáustica derramada pela estrela, acordou. Diabos! Adaptar a visão àquela claridade toda era empreitada indigesta. Quando as cores finalmente entraram em sintonia Fromilda pôde contemplar sua insólita condição: suas pernas davam lugar a um rabo de peixe brilhante, reescrevendo uma versão híbrida do que fora até então. Bateu a cauda para fazer um pequeno test drive, experimentando movimentos inéditos, quando uma vontade insuportável de mergulhar no mar a tomou. Rapidamente ela foi se arrastando até as águas, desenhando ideogramas ininteligíveis na areia. Coração na boca: tum tum… tum tum… tum tum… Enquanto isso, um tsunami de hipersensibilidades bateu contra o seu corpo ao som de sinfonia imaginária. Convulsões impulsionavam-na com velocidade pelas águas, emulando golfinhos num bailado belíssimo, se desviando com uma habilidade absurda dos cardumes e dos corais cortantes.

Não lhe faltava ar, nem felicidade. A hidrodinâmica do seu torso fatiava as moléculas submarinas como a mais afiada das espadas, impulsionando-a em espirais coreográficas ousadíssimas. Sua humanidade havia sido esquecida, abandonada. Quando por fim exauriu seu repertório sob o domínio completo das novas habilidades ela percebeu que sua versão atualizada serviria para realizar seu maior sonho: encontrar o pai agora sem maiores dificuldades, afinal de contas, o Atlântico servia de quintal para o homem.

Fromilda não via a hora de vê-lo novamente, dizer da saudade que sentiu, dizer que lhe perdoava. Iria implorar para que seu herói a resgatasse da maldade da mãe amargurada e quem sabe depois do seu resgate bem-vindo, confessar que seu coração sempre fora dele. Dessa forma, singrou os mares por horas até finalmente encontrar o barco pesqueiro pertencente ao seu criador.

            Ao longe, apenas com a cabeça para fora da água a filha o viu. Ele estava com a mesma imponência das fotos, ainda mais belo com o rosto marcado pelos anos nos conveses das embarcações. Estava com um cachimbo na boca e, ao flertar com Fromilda, se assustou. Ela, por sua vez, emocionada, deu um salto para fora da água expondo toda a beleza de sua cauda mitológica. Tomou impulso para reaparecer mais perto, subiu novamente para se mostrar a Baldênio, sorrindo.

            Naquele exato momento ela percebeu que os cortes nos dedos proporcionados pelas lâminas que usava no trabalho não chegavam nem aos pés da dor que tomara seu peito. Ao olhar para baixo viu um arpão transpassar seu corpo, o sangue saindo aos borbotões trocando o azul do mar pela tinta da sua morte. Aquela dor insuportável foi deixando o dia cada vez mais enegrecido e a sereia Fromilda antes de perder completamente os sentidos viu o pai pular de alegria junto de outros marinheiros.

            Ao ser arrastada da água, Baldênio não acreditava que por fim havia pescado o monstro do mar que caçara obstinadamente durante toda sua existência. Os companheiros, incrédulos, contemplavam a criatura morta sem acreditar nos próprios olhos ao constatarem que as histórias contadas por seus ancestrais marinheiros era verdadeira.

            A ausência do lar, durante tantos anos, apagara da memória do homem os traços parentais que poderiam causar alguma dor ao pescador implacável. Findo o primeiro ato daquela tragédia travestida de prodígio, Baldênio colocou o corpo da nereide numa enorme caixa com gelo, fazendo dela o túmulo improvisado da criatura fantástica capturada. Depois disso, voltou para o timão, mudou a rota rumo à terra firme e beijou o pingente de sereia, agradecendo aos deuses do mar por aquela pescaria magnífica.

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Os relógios do senhor Wanderbuild https://meconteumconto.com.br/os-relogios-do-senhor-wanderbuild/ https://meconteumconto.com.br/os-relogios-do-senhor-wanderbuild/#comments Mon, 09 Feb 2026 19:36:41 +0000 https://meconteumconto.com.br/?p=1

Imensos, cada um a seu momento, dependurados nas paredes escuras da grande mansão, os relógios batem, mas começam a parar um a um. Um homem com um copo à mão recebe visitas de um estranho casal. Todos bebem, o dono da casa e a mulher se envolvem. O casal parte, o último relógio deixa de bater. Esses são os elementos dessa bela e estranha narrativa.

por: Aírton DeSouza

A parede defronte o imenso sofá de couro, corroído matematicamente, estava coalhada de relógios se alternando de modo frenético por estabelecer suas batidas. Todos respeitavam os segundos voluntariosos, separando as horas inevitáveis. Era uma sinfonia não sincronizada, mas alternada, como se cada um daqueles instrumentos quisesse se contrapor ao outro, por milésimos de segundos. Era um sopro a mais na existência.

No centro do sofá, com um cálice de licor nas mãos, o senhor W. observava os movimentos dos ponteiros, questionando quando deixariam de se pronunciar. Movimentava a pequena taça em direção à boca, num automatismo de fazer inveja aos ponteiros de cada uma daquelas máquinas vetustas, bem distribuídas na imensa parede. Atingiam o alto, pois eram em número considerável a fazer breves sombras quando da passagem do sol pelos dias estivais.

Súbito uma estacada inesperada de um dos ponteiros marcou a inexistência de energia para que se processasse o movimento. O ambiente, portanto, ficou com menor grau de barulho do que o costumeiro. Um dos relógios havia parado de marcar as horas, o que era basicamente uma afronta ao anfitrião que ora se recolhia em seus pensamentos, em seu movimento de copo na boca, como se houvesse um atraso, posto que havia a falta de um dos ponteiros a correr a imensa lâmina de números em torno do círculo regular.

Mais um e tantos mais acompanharam o primeiro que se manifestou, ou que deixou de se manifestar, até que restou apenas um como um valente guerreiro de espada em punho, ou melhor, de ponteiros em punho a convergir sempre em direção ao caminho rotineiro de um relógio.

O senhor W. não apresentava qualquer expressão mais grave, de desaprovação. Continuava com seu movimento mínimo de levar o pequeno cálice à boca, até que não restasse mais nada. Quando isso aconteceu, depositou o delicado objeto sobre a mesa de madeira rústica. Acabara de ouvir a campainha. Como estivesse sozinho, foi em direção à porta, abriu-a e se deparou com um elegante casal. Os três trocaram olhares inconfundíveis, sorriram comedidamente e se dispuseram ao diálogo.

            – Já esperava por você, mas não esperava que viesse acompanhado – considerou o senhor W., movendo o rosto à esquerda, em direção ao homem, depois à sua direita, em direção à bela mulher.

            – Digamos que se trata de um presente, uma surpresa – ponderou o que acabara de chegar.

            – Não sou muito dado a surpresas, bem como as evito, pois não gosto de nada inesperado, mas, supondo você a trazê-la, acredito que possa eu ficar mais à vontade… – concluiu W. fazendo com que os dois entrassem na imensa sala.

O visitante passeou os olhos pelo ambiente e não deixou de notar a variedade de relógios na imensa parede, mas, principalmente, o fato de apenas um deles ainda estar em atividade. Os demais pareciam recolhidos a um canto, esboçando tristeza em seus ponteiros que agora pendiam sem função, enquanto suas caixas não propiciavam nenhum barulho sequer, isso cabendo apenas ao que ainda se mantinha ativo. A mulher, por sua vez, não se ateve a esse episódio, mas sim, ao luxo do ambiente. Embora fossem mínimos os   móveis, os que ali se encontravam valiam muito a pena, dada à qualidade e à nobreza de cada uma daquelas peças. Ela poderia descrever a madeira com que cada uma fora feita, pois era de sua natureza avaliar o luxo que cerca as pessoas, sobretudo quando o tempo passa e podem desfrutar de seus ganhos, não só financeiros, mas também de seu aprimoramento quanto ao gosto por objetos e pessoas.

Dirigiu-se ao anfitrião com delicadeza depois de se ater a cada um dos componentes do luxuoso ambiente. Sua voz nada tinha de monótona, flexionando-se melodiosamente.

            – L. ao seu dispor…

            – Admito que seja uma sugestão as demais letras que possam acompanhar essa consoante – disse W. esbanjando um sorriso.

            L. riu sem pudor, pois tinha em mente que ele, caso não de imediato, no decorrer dos momentos que teriam para si, seria capaz de pressupor, sem pestanejar, as demais letras que fariam sequência àquele início mínimo. Enquanto ele, elegantemente, beijava uma das mãos da mulher, ela corria os olhos pelos ombros dele, pelos cabelos, pela roupa bem cortada, indo depositar a última das visões sobre os olhos que agora se erguiam entusiasmados.

            Afastado pela distância adequada, M. havia se servido de uma bebida e a apreciava, observando o casal a se formar pelos instantes seguintes. Em gestos comedidos, com sua voz metálica de barítono grave, dirigiu-se ao casal, pois esse parecia ter esquecido a presença de outra pessoa no ambiente.

            – Creio que podemos nos acomodar para discutir as regras do contrato, porque não nos falta tempo suficiente para outras amenidades, no caso, o verdadeiro sabor de tudo.

            Os três se voltaram de costas, já que se encontravam no centro da imensa sala, em busca de um lugar para se acomodar. Três pequenos e aconchegantes sofás individuais, cobertos de fina camada de couro envolvente pareciam insinuar a si mesmos em direção às pessoas no ambiente. Cada uma, portanto, tomou seu lugar e uma pequena mesa a um canto parecia também desejosa de participar dos acontecimentos. Ela foi, em seguida, arrastada pelo senhor M., tomando a veia de anfitrião, colocando sobre ela um litro de uísque, um pouco de vodka em outro recipiente, um litro de vinho recém-aberto, além de uma pequena botija de licor, de aparência convidativa aos prazeres da carne.

A mulher, sem pestanejar, tomou logo uma pequena taça e a encheu com o líquido erótico e se recostou no espaldar macio, pondo-se a tomar em pequenos goles que embalavam seus pensamentos e escorriam silenciosamente pela garganta não mais ressequida pelas palavras ou pelo vento de há pouco lá fora.

W. preferiu o uísque, embora também ficasse um pouco tentado pelo licor compartilhado pela mulher. M. foi direto ao vinho, encheu generosamente sua taça e se pôs a beber, como se fizesse um bom tempo que não praticava aquele gesto singular.

Assim permaneceram por instantes, testemunhados somente pelo último dos relógios, ainda insistindo em bater no compasso dos ponteiros precisos em seu movimento. Apenas os olhares se tocavam vez ou outra, mas nada que pudesse comprometer qualquer um deles.

            – Parece-me um bom momento para umas palavras – proferiu M. em tom solene.

            – Será que de fato tem lugar? – observou W. dirigindo-se lascivamente para L.

            – Tudo a seu tempo, diria um sábio, embora não pareça o lugar mais apropriado a um neste lugar. Se insiste na dispensa das palavras, por que não se apega ao que de fato deseja, afinal está diante de você o que tanto quis, ou o que sempre desejou ao longo de toda sua vida! – concluiu M. de modo lacônico, sem deixar margem para outras observações.

As palavras soaram como uma ducha a cair fortemente sobre a cabeça de W. Quase por instinto, mudou a atitude do olhar e se recolheu de modo defensivo, preparando-se para o contra-ataque.

            – Por quem me toma? Acredita que sempre me ative apenas aos prazeres mundanos, sem me ocupar de tantas abstrações necessárias a um provedor como eu? Saiba que encontrará um universo de leituras indelével, uns tantos textos compostos com observações que sempre deleguei ao mundo, como forma de tentar entendê-lo, ou de dizer alguma coisa, um breve caminho que fosse aos pequenos andarilhos errantes, sem nunca encontrar a tão sonhada luz que pudesse provê-los de um lugar de parada, um mínimo abrigo!

            W. tomou mais um gole, especificamente, um grande gole que lhe percorreu as entranhas, queimando tudo como uma fagulha num universo ressequido depois de anos sem a menor queda d’água. Aquilo não lhe parecia normal, ser reduzido a tão somente um ser abjeto, afeito aos desejos da carne, incapaz de contribuir para outras faculdades, além das tão singelas e obscenas.

M, em sua posição, continuava impávido, senhor de suas observações, aguardando as ações do outro, na vã tentativa de convencê-lo do contrário. Também se dispôs a mais um gole, mas sem a mesma fúria do gole do outro, sem a intensidade agressiva a lhe proporcionar incômodo.

            – Então devo supor que recusa o que lhe trago com tanto zelo e agrado… Não deixará apenas a mim com cara de insatisfação, mas, por certo, fará com que lágrimas caiam por tão belo rosto. Eis o que de fato é o que deseja, sem ao menos experimentar timidamente qualquer parte desse regalo diante de si? – inquiriu M.

Momentaneamente, sobreveio a dúvida a W. Tomou mais um gole antes de qualquer decisão. Jamais se perdoaria por ser afoito, ou se deixar levar por um capricho menor, ou por uma folha aleatória caindo de uma árvore ao longe. Talvez tivesse sido um autoritário, um emperrado em certos conceitos, um bruto, isso o que alguns julgavam. No entanto era de sua natureza ir à frente e retroceder se fosse o caso, medindo as consequências de qualquer gesto impensado ou feito com sofreguidão.

Ergueu-se decididamente e foi em direção à mulher, tomando-a nos braços, fazendo com que ela sorrisse e abrisse os lábios em direção a ele. A uma pequena distância, M. observava satisfeito. Não era costume deixar-se levar por argumentos contrários às suas decisões. Conhecia bem a espécie humana para não se enganar no que sugerisse ou no que propusesse a ser feito por cada um dos que visitava, em suas casas, no ritmo dos relógios que avançavam impiedosamente rumo ao desconhecido.

Levantou-se placidamente, não como o outro, e passeou pelo ambiente, tomando sua bebida num ritual de prazeres e conclusões acertadas. Tudo estava a contento.

Assim instantes se passaram e M. voltado para um quadro cubista em uma das paredes, virou-se quando cessaram as respirações apressadas, o farfalhar de roupas sendo tiradas e depois sendo colocadas. Sua presença ali não carecia de ser notada, exceto quando daquele momento em que tudo parece terminar. E lá estavam novamente os três sentados em suas posições originais, com seus copos de outrora, com outros olhares e outros semblantes.

            – Ah, os artistas… Você tem belas telas aqui! – disse M. com um brilho no olhar.

            – Naturalmente, minha outra paixão! – respondeu W, embriagado pelas próprias palavras. – Esses seres magistrais, com seus múltiplos talentos me inspiram.

            – Ao que me consta, o senhor foi sempre um colecionador, mas sempre com um olho no que poderiam render financeiramente … – observou M.

            – Há algum pecado nisso? Afinal, com essas compras, como o senhor mesmo pode notar, muitos se fizeram grandes, tornaram-se conhecidos no mercado, venderam obras e obras e puderam se dedicar com mais afinco ao que faziam de melhor, sem se preocupar com as banalidades que invadem o cotidiano de todo mortal – pontuou W., bebendo mais um pouco do seu copo, já quase vazio.

            – Nenhum pecado. Possivelmente, uma exceção a ser feita… Quando o senhor investiu em quem não tinha talento algum e mesmo assim foi à lua, graças ao seu poder de convencimento, ao respeito que lhe dirigiam, como se fosse o que decidisse tudo, quem ficaria com os louros ou quem estaria fadado ao fracasso? – acrescentou M.

As palavras de M. permaneceram intactas na sala, pois o silêncio posterior não poderia quebrar-lhes o encantamento ou tirar-lhes o poder de rasgar a carne trêmula de um transeunte bêbado em frente a um bar que lhe recusa a venda de mais uma dose. A glória imaginada anteriormente não passava agora de sombra fria sobre figuras desconhecidas, dispostas numa sala, bebendo como se não houvesse um mundo do lado de fora. Mas havia e os dois, da mesma forma que chegaram, partiram elegantemente, deixando W. solitário com suas lembranças de há pouco e com o amargo na boca das conclusões que M. martelava em sua cabeça.

Sentou-se no sofá defronte ao último relógio ainda em atividade. Os ponteiros avançavam de maneira inquieta como se previssem a parada inevitável. Já não havia mais qualquer líquido em qualquer uma daquelas garrafas cheias até poucos momentos. Não havia mais sorriso se abrindo em direção alguma, nem lábio a envolver qualquer boca desejosa do prazer de L. Não havia mais prazer na contemplação de um quadro qualquer que fosse o artista ou estilo, ou de qualquer escultura, por mais ridícula ou perfeita que fosse.

Não havia mais respiração, pois o corpo de W. jazia inerte depois dos últimos prazeres. Não havia mais o som do último relógio cujos ponteiros percorriam inevitavelmente o imenso círculo de números e sinais simétricos.

Lá fora, M. e L. caminhavam rumo a outro destino onde houvesse relógios batendo em direção a seus últimos momentos. M. tinha um copo na mão, companheiro inquestionável para a jornada. L. trazia a beleza inigualável de quem se veste para seduzir. Havia o nada! Haveria o tudo.

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