Drama Psicológico – ME CONTE UM CONTO https://meconteumconto.com.br Sat, 21 Mar 2026 18:00:05 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9.4 https://meconteumconto.com.br/wp-content/uploads/2026/02/android-chrome-512x512-1.png Drama Psicológico – ME CONTE UM CONTO https://meconteumconto.com.br 32 32 A mulher do lado https://meconteumconto.com.br/a-mulher-do-lado/ Tue, 17 Feb 2026 19:06:21 +0000 https://meconteumconto.com.br/?p=53 A mulher do lado

por: Aírton DeSouza

Adentrou o amplo apartamento amparada por mãos fortes, empurrando uma cadeira tomada de alguém que não mais fazia uso, porém bastante providencial para aquele momento, até se recostar no leito. Não quis percorrer o interior da casa já tão conhecida, no máximo dirigiu seus olhos a uma parede salpicada de vinhos das mais variadas uvas, suspensos por um móvel, capaz de prender cada um deles com a segurança exigida. Deve ter imaginado quantos jantares poderiam ser servidos, quantos amores brindados por cada uma daquelas garrafas. Abaixou os olhos em silêncio, imaginando a impossibilidade desse acontecimento para os meses seguintes. Não importava a estação, se a mais fria, exigindo uma bebida mais quente. Aquelas garrafas ali permaneceriam, ou poderiam ser arrastadas pela densa poeira, alcançando cada uma delas, na impossibilidade de serem consumidas.

            Os únicos a receber um aceno, um carinho, foram seus animais com olhos comovidos pela chegada da dona, sedentos de uma mão sobre suas cabeças. Eles a acompanharam no seu itinerário até o quarto, já bastante arejado pela ajudante tão prestativa, conhecedora dos suores a invadir aquele corpo já tão calejado pelas aventuras do tempo, pelo cuidado com outros. Agora ela carecia de cuidados, ideia nada suportável, imaginando-se acima de suas forças, esforçando-se com todos, indistintamente.

            Atirou-se na cama de forma precisa com o devido cuidado com as partes, necessitando de atenção redobrada. As pernas foram colocadas sobre almofadas criteriosamente dispostas aos pés da cama e, sob a cabeça, os macios travesseiros, únicos capazes de acalmar as necessidades de um corpo já bastante surrado pelas intempéries cotidianas. Não que desprezasse os cuidados estéticos, mas no momento não eram os mais requeridos, limitando-se, pois, ao conforto. E isso ela conseguiu e sorriu ainda sem o desejo exigido para tal gesto, mas sorriu, talvez para acalmar os que a rodeavam, fazendo gestos de reverência, mas sobretudo de disposição ao porvir.

            Pela porta lateral, vista com o inclinar de olhos, podia ver os amores escondidos em cada uma das páginas dos livros encimando paredes se alongando para o alto. Quase não era possível ver as cores dispostas sobre os tijolos à vista, detalhes de decoração exigidos, pois os livros, esses sim, soberanos sobre quaisquer outros objetos, cegavam a visão, ou melhor, os olhos não conseguiam e possivelmente não desejavam ir além daquele ponto.

            Munida de desconfianças, não imaginava, no entanto, quão longa seria sua permanência naquele pequeno espaço, onde passaria, inclusive, a fazer suas refeições, essas sem as devidas proteínas animais, opção dela, limitando-se a tantas verduras e legumes. No máximo, ovos muito bem-preparados! Fizera opção por essas refeições frugais e fazia questão de alardear seus benefícios, o que nem todos no entorno compartilhavam, afeitos aos prazeres da carne, acompanhada de bebidas, essas sim, escolhidas criteriosamente para cada tipo de refeição.

            Limitou-se dali a pouco a fechar os olhos como se antevisse o horizonte distante de quando voltaria a poder andar pela casa, sem a ajuda de terceiros ou de um aparato a lhe sustentar o corpo, de quando poderia novamente levar sua cachorra já anciã, companheira de quase sempre, a dar seus passeios matinais, ou quando poderia novamente se atirar em exposições de orquídeas, suas preferidas, frequentar as amadas livrarias, hábito incondicional, além de ir ao seu restaurante preferido com a música do pianista a lhe provocar emoções inquestionáveis. Estava abandonada em si, faltavam-lhe as forças, a energia necessária para imaginar tudo aquilo como algo transitório.

Chegou a pensar que jamais sairia daquela situação, estaria condenada ao pequeno espaço, embora confortável, munidos de todos os aparatos tecnológicos da modernidade, no entanto carente de espaços mais amplos, de horizontes a se perderem, infindáveis, no tempo, na alma.

Isso incomodou a ele, ao sempre presente, atento a tudo com seus olhos apreensivos com ideias dessa natureza. Sabia ele, não ser ela mulher de desistências, mas nunca a vira como daquela vez e chegou a questionar suas próprias convicções.

            E assim correu o tempo e a luta diária se desenrolava sem maiores perspectivas, o que tornava o calvário agora entendido como algo insuportável. Talvez no fundo desejando que terminasse o mais breve possível, tamanha sua ansiedade, tamanha sua necessidade de abrir os olhos no meio de um campo de girassóis e imaginar cães e gatos, seus animais preferidos, correndo em direção a ela, roçando-lhe focinhos, entrelaçando-se em suas pernas agora firmes, não necessitando de apoio em sua locomoção.

            Os silêncios se tornaram presentes numa vida pautada pela comunicação. Desapareceu por completo de todos os meios que testemunhassem a sua existência, a sua condição. Os amigos foram esquecidos, limitando-se a apenas a um, insistindo, não em vê-la, mas sempre presente nas imediações, com seus convites impossíveis de serem atendidos, com lembranças de tempos de festa, nada banais, mas verdadeiros regalos à existência de apreciadores de arte, de livros, algo como se fosse do outro lado da vida, da trivialidade.

            E isso permaneceu, estendeu-se, quando todos perceberam a impossibilidade de uma visita, quem sabe uma visão ao longe. Ela estava encastelada e assim permaneceu, não oferendo brecha sequer, no máximo uma palavra solta daqui e dali, uma informação julgada pertinente diante de algo corriqueiro. Ninguém mais a viu. Tornou-se um fantasma aos olhos de tantos que a rodeavam ao longo dos anos, dos espaços, dos encontros inusitados ou previsíveis.

            Era quase meio-dia, de um dia como tantos dias, em que o princípio não expõe nada de extraordinário! O sol insistia em não dar trégua aos ventos frios da manhã, prenunciando outono. Tudo seguia seu ritmo. Dirigia não absorto, pois isso acarretaria desconfortos no seu espaço, mas aflorando pensamentos por diversas situações, fixando-se em pontos distantes, pois imenso era o tempo de que dispunha no colecionar de fatos, episódios, memórias. Ocasionalmente, dirigia seus olhos aos retrovisores do veículo, uma forma de se situar, sobretudo frente aos motociclistas em loucas disparadas, com suas entregas inadiáveis, como se prevendo o fim dos tempos. Ele não, tinha a paz encontrada depois de longa batalha, de inúmeras convivências, de chegada a um ponto de conforto.

Seu olhar vagueando, cambaleando, foi ao encontro de um rosto altivo, sério, sem ser sisudo, atrás de um volante de um carro prateado ao lado, precisamente à esquerda. Era um carro elegante, em conformidade com a elegância e determinação daqueles traços tão bem esculpidos. Pasmou-se, não temeroso, mas exultante, pois vira quem não imaginara ver. Sua primeira reação foi abaixar o vidro e pedir a ela que fizesse o mesmo. Assim aconteceu.

            – Eu conheço você!

            – Receio que não – respondeu ela, tentando ser simpática, mas intrigada com aquele sujeito no carro ao lado, demonstrando intimidade! – Acabei de chegar…

            – Por isso mesmo, não era você até então!

            A mulher ficou sem entender as últimas palavras, fechando o vidro, aberto pelo momento, pois o sinal abrira e deveriam seguir em frente. Seguiram lado a lado, trocando olhares incompreensíveis, no entanto, carregados de segredos de quem não se conhece, mas é íntimo por razões desconhecidas. Depois de alguns metros, separaram-se em uma bifurcação, dessas que impedem o rolamento dos veículos, além de continuidades do que é possível aos sonhadores, aos desajustados frente aos conceitos sociais, os loucos, por assim dizer, os melhores, no entendimento de um pequeno grupo.

            Diante do inesperado, daquilo fazendo o coração saltar de forma descompassada, de provocar pensamentos há muito esquecidos, tingidos pelas sombras do tempo, o melhor a se fazer é estacionar, não apenas o carro, mas também a vida e repensar cada segundo do passado recente. E ele o fez. Já com o carro desligado, preso a um ponto onde não seria incomodado por buzinas desastradas e insistentes, ele voltou para si, em monólogo interior, onde as palavras eram tingidas de tintas carregadas de emoção.

            Era ela, mas ao mesmo tempo não era, era uma nova ela, renascida, talvez, fugitiva de si, inconformada com as limitações, com as impossibilidades do prazer, do viver. Mas era ela.

            Notícias esparsas ao telefone, comentários de temas comuns aos dois, visitas inevitáveis, nunca concretizadas, tudo se resumia a isso e ao desejo de agora retomar o caminho de volta, ir em outra direção e ser surpreendido. Aguardava por isso, a surpresa, não aventava outro acontecimento. Portanto, em velocidade acima do que era comum a ele, por seu cuidado rigoroso, foi-se em direção à casa da amiga que não via há tempos, ofuscada pelas sombras de um abandono em si, impossibilitada que estava de atender aos desejos daqueles desejosos de vê-la. O coração batia agora mais descompassado, diante da imprevisibilidade do futuro próximo, mas a ansiedade para sua ocorrência logo, fazia com que acelerasse ainda mais.

            O endereço já o sabia de cor e não houve qualquer dificuldade em vencer o trecho que o afastava de seu destino. Sim, destino, como nas premonições mais alarmistas ou mais sensatas, nada de propósitos ou pontos de chegadas, isso sim era por demais concreto, não trazia em si a potencialidade do que carrega a palavra destino. Não tinha, pois, receio, ao contrário, desejo estava de sua concretude e não ficasse limitado às subjetividades.

            Diante da casa, um pequeno tumulto e quando o viram acorreram até ele. Traziam a notícia, provavelmente, já aguardada. Ela tinha desaparecido, não se sabia exatamente como, mas deixara tudo para trás, desfizera-se de todo o aparato a ajudando no seu cotidiano. Para onde iria não haveria necessidade disso? Ocorrera um milagre? Crente que era não hesitou em conceber essa ideia, mas não se livrou da sua vocação estética. Lá estava ela, no seu sedã prateado, com seu rosto denotando a mais profunda elegância, senhora de seus movimentos e flanando pelas ruas da cidade.

            Ele sorriu, mesmo diante do desespero das pessoas em volta dele. Ninguém compreendeu aquele sorriso com doses enigmáticas de ironia, pois ninguém pôde testemunhar o que ele vira ainda há pouco. Ele sabia que os campos de girassóis, ocasionalmente floridos ao longo de certos meses no outono, final de verão, estariam recebendo não só a ela, em todo o seu esplendor, bem como seus fiéis companheiros, pequenos seres que nunca a abandonaram, mesmo diante das adversidades impostas pelos destinos cruéis.

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